Dedicado a Sua Divina Graça A.C. Bhaktivedenta Swami Prabhupada e Gurudeva Srila Dhanvantari Swami

Dedicado a Sua Divina Graça A.C. Bhaktivedenta Swami Prabhupada e Gurudeva Srila Dhanvantari Swami
Jagad Guru Srila Prabhupada

quarta-feira, 3 de outubro de 2007

Analisando a Estrutura do Bhagavad-gita


Originalmente publicada em Back to Godhead [Volta ao Supremo]
Analisando a Estrutura do Bhagavad-gita
Looking into the Structure of Bhagavad-gita

Por Ishvara Krishna Dasa

O Bhagavad-gita é sem dúvida o maior tratado espiritual e um dos maiores clássicos do mundo. Entender que um conceito hierárquico de realidade caracteriza o Gita pode-nos ajudar a ver a coerência da mensagem do Gita.
O Bhagavad-gita fala em dois níveis maiores de realidade e um terceiro intermediário. Podemos usar as palavras sânscritas dharma e moksha para tratar os dois níveis principais, e yoga para o terceiro. Dharma se refere a um conjunto de valores representados por dever, religião, moralidade, lei, ordem e justiça, que, juntos, mantêm a vida humana civilizada. Yoga se referiria ao esforço de se desapegar da vida mundana enquanto tenta se unir ao estado de liberação. Moksha se refere ao estado liberado de perfeição e existência eterna em serviço devocional ao Senhor Supremo Sri Krsna. O nível de dharma representa o homem enquanto parte deste mundo, o nível de moksha representa o real ou a condição absoluta (liberada), e o nível de yoga é o intermediário. Podemos também definir esses três níveis como o finito, o intermediário e o infinito.
Podemos ainda distinguir cada nível em termos de valores e de ser. Para dharma, a regra geral em termos de valores é prosperar. Neste nível, a pessoa desejaria prazeres do mundo e prosperidade, vendo esses como bons. Em termos de ser, a pessoa veria a entidade viva como sendo o corpo, sendo um ser humano ou alguma outra espécie.
No segundo nível (yoga), a pessoa rejeitaria prosperidade mundana, valorizando, ao contrário, desapego do mundo e indiferença tanto ao prazer quanto a aflição materiais. Neste nível, a pessoa se aproximaria de uma realidade mais elevada, a de moksha. Em yoga, a pessoa valorizaria a superioridade do ser de mente estável perante tanto felicidade quanto aflição, e buscaria se absorver no Brahman. Em termos de ser, a pessoa não perceberia mais a si e aos outros como o corpo, mas como eternas almas espirituais condicionadas às leis do samsara.
No terceiro nível (moksha), a pessoa substituiria a indiferença e desapego do segundo nível por profundo amor e apego à Pessoa Suprema. Como ser, a alma vigilante do segundo nível se tornaria agora um servo puro e amante da Pessoa Suprema.
Os três níveis representam estados mentais internos e atitudes. Assim, uma pessoa que vê o mundo do ponto de vista do nível primeiro é certa de ser um ser humano, e que sua meta é prosperidade. No segundo nível, a pessoa é certa de ser um eu espiritual condicionado e que deve ter como meta abandonar tal situação condicionada. No terceiro nível, a pessoa vê o Senhor Supremo em toda a parte e tenta amá-lO e servi-lO.
Podemos usar uma casa de três andares como metáfora. Cada andar tem ilimitados caminhos e oportunidades. Além disso, os residentes de cada andar têm sua própria língua, termos e assunções. De alguma forma, o Bhagavad-gita fala três línguas e constantemente se movimenta entre os três níveis. Uma vez que reconheçamos em qual nível está situado cada texto, aquele texto ou seção se torna inteligível e podemos ver como é conectado com o restante do tratado.
Um Exemplo de Transição Entre Níveis Metafísicos no Bhagavad-Gita
Quando Arjuna argumentou contra lutar na guerra, ele o fez no primeiro nível. Podemos analisar seus argumentos de acordo com os dois parâmetros previamente analisados: valores e ser. Quanto a valores, é facilmente perceptível que o foco do discurso de Arjuna é a aquisição de prosperidade mundana. Um de seus principais pontos é que a guerra causaria o decline do dharma e a ascensão de adharma, o que acarretaria em sofrimento para o mundo. Como ele acredita que prosperidade é bom, ele levanta oposição à guerra. Em termos de ser, Arjuna pensa em si mesmo e nos outros como sendo seres humanos.
Krsna não responde Arjuna diretamente, senão que leva a conversa para o segundo nível. Em Sua resposta, os valores que Krsna propõe são absolutamente diferentes; Krsna não aceita a idéia de que prosperidade mundana é algo positivo, mas sugere indiferença (e tolerância) em relação a felicidade e aflição materiais. Ele diz serem estes efêmeros e produzidos apenas da percepção sensorial. No campo do ser, Krsna não se refere aos soldados como sendo seres humanos, mas se refere a eles como almas espirituais. Não respondendo diretamente à pergunta de Arjuna, Krsna faz uma espécie de “revolução coperniciana”, mudando a assunção da conversa. Arjuna argumenta que matar seus parentes é ruim, claramente algo do departamento do primeiro andar que assume que as pessoas estão sujeitas à morte mas que a morte deve ser evitada tanto quanto possível pela causa da vida próspera. Krsna não responde aos argumentos de Arjuna, mas muda completamente a conversa para outro nível e fala partindo de outra priori. Basicamente, Ele fala que a morte não existe de fato (assunção do segundo andar) e, portanto, não percebe lógica nos argumentos de Arjuna. Assim, também, Krsna desafia a idéia de Arjuna de que prosperidade e felicidade mundana são boas e desejáveis. Ele propõe a idéia de que a indiferença a felicidade e aflição é algo bom e desejável. Em suma, Krsna fala pelo segundo andar da casa.
O Aspecto Reformador do Bhagavad-gita
Como uma escritura prática, o Bhagavad-gita oferece os meios para se cruzar o caminho entre o primeiro nível (dharma) e o terceiro (moksha). Mera adesão a dharma e rejeição a adharma não é suficiente para se alcançar o estágio de moksha. A pessoa precisa de outro tipo de empenho ou caminho. Este processo ou empreendimento é algumas vezes chamado de auto-realização, e envolve um caminho reformatório pelo qual a pessoa progride, passo a passo, avançando do nível inferior em direção ao nível superior. Quais meios práticos ou sistemas o Bhagavad-gita oferece?
Uma questão significativa levantada no Bhagavad-gita é se a pessoa deve escolher o caminho da ação ou o caminho contemplativo. Arjuna levanta tal pergunta duas vezes, no começo do terceiro e quinto capítulos. O Bhagavad-gita claramente recomenda o caminho da ação como meio para o executor se elevar do nível de dharma para o estado de moksha. A pessoa executa essas ações purificatórios de acordo com seu dharma e continua a trabalhar dentro de sua gama de deveres dharmicos. Assim, Krsna, por meio de seu discurso, encoraja Arjuna a seguir seu dharma e lutar. Todavia, com o progredir do diálogo, os motivos para Arjuna lutar começam a se refinar. Krsna mostra a Arjuna como ele pode lutar em um estado de consciência cada vez mais elevado. Dessa forma, embora externamente continuemos com a execução de nossos deveres prescritos, nós, internamente, por sublimação ou purificação, sofremos uma reforma em nossas motivações para agir. Assim, uma espécie de escadaria é formada, pela qual a pessoa sobe mais e mais de dharma a moksha no caminho da auto-realização.
Referências Textuais da Escada das Motivações
No estágio mais baixo, as atividades pessoais são motivadas pelo utilitarismo, ou o desejo de conseguir algo para si mesmo. Krsna, primeiramente, lança mão de um argumento utilitarista para tentar convencer Arjuna a empunhar suas armas. Krsna toma como verdade que Arjuna aspira a lucros, tais como fama e felicidade, e argumenta que se ele abandonar o campo de batalha ele perderá sua fama.
O próximo argumento de Krsna também é utilitarista, mas é, de alguma forma, superior no sentido de que aceita a autoridade das escrituras ao afirmar que os guerreiros mortos no campo de batalha alcançam os planetas celestiais. Podemos, portanto, chamar o estágio em que esse argumento é levantado de “utilitarismo religioso” ou “utilitarismo dharmico”.
Em outras palavras, Krsna aconselha Arjuna a seguir o dharma para que consiga certos fins nesta vida ou na próxima. Mas é superior seguir o dharma por si só, ou executar o dever por uma questão de dever. Esse estágio representa um modo puro de agir, livre de desejo aos frutos, e é um dos ensinamentos centrais do Bhagavad-gita. Ainda estamos no primeiro andar, todavia, uma vez que essa instrução não inclui a consciência do benefício maior, que é, de acordo com o Bhagavad-gita, a liberação do samsara. De qualquer forma, aqueles que seguem dharma por uma questão de dever, alcançam à perfeição do primeiro nível e podem continuar progredindo no nível seguinte.
O estágio seguinte rejeita o valor dos Vedas - considerando-os relacionados à prosperidade mundana - em prol de um ideal superior: alcançar o Brahman. Podemos chamar esse estágio de “ação motivada por alcançar o benefício maior (Brahman)”. Aquele que assim age está situado no segundo nível, caracterizado por vários processos de yoga. Ele talvez passe a praticar karma-yoga; desinteressado pelos frutos de suas ações, ele os oferece ao Supremo. Ele talvez passe a praticar jnana-yoga, ashtanga-yoga, ou bhakti-yoga. Todas essas práticas de yoga têm como objetivo comum fazer com que o praticante se desapegue dos apegos e existência materiais e se fixe no Supremo. Iluminação e renúncia caracterizam o estágio de yoga. Tendo atingido a perfeição desse estágio, nós, finalmente, elevamo-nos ao terceiro, o andar de moksha, e continuamos a executar nossos deveres em um humor profundo, puro e espontâneo de amor devocional por Krsna.
Sumário
Nós adicionamos alguns passos à nossa simples escada de três degraus. Agora podemos sumarizar os estágios em utilitarismo simples, utilitarismo dharmico, dever pelo próprio dever, agir objetivando o benefício maior ou o Brahman, o estágio de yoga, e o estágio de moksha ou devoção pura. Nessa escada das motivações, os motivos mais elevados de cada um para agir estão situados na estrutura metafísica do Bhagavad-gita. Nesse sentido, o Bhagavad-gita inclui todo o reino da existência enquanto encoraja a todos a ascenderem ao longo das diversas motivações, distanciando, assim, a pessoas do samsara e aproximando-a do Brahman. Seguindo essa estrutura, o estudante pode entender o Bhagavad-gita como um tratado teológico-filosófico coerente, firmemente conectado como um único e unificado texto. O Bhagavad-gita oferece o modelo de uma casa de três andares na qual o mundo inteiro pode morar*.


Tradução por Bhagavan dasa (DvS).


* O autor faz um intertexto com a obra biográfica de Prabhupada “Um Santo no Século XX”, que teria sua tradução literal como “Ele construiu uma casa na qual o mundo inteiro pode morar”.

terça-feira, 2 de outubro de 2007

ISKCON Tirupati: Trazendo Goloka até Vaikuntha


Originalmente publicado na edição de Julho/Agosto de 2007 de Volta ao Supremo[Back to Godhead]

ISKCON Tirupati: Trazendo Goloka até Vaikuntha

ISKCON Tirupati: Bringing Goloka to Vaikuntha


Por Murari Gupta Dasa


Há mais de três décadas atrás, Srila Prabhupada desejou estabelecer a adoraçãode Radha-Krsna em Tirupati, Sul da Índia. Agora, Revati Ramana Dasa, opresidente do templo da ISKCON Tirupati, e os dedicados devotos de lá,realizaram este desejo de Prabhupada da forma mais maravilhosa.Tirupati, em Adhra Pradesh, é a cidade que hospeda o templo mais rico do mundo,o qual é visitado por milhares de pessoas que desejam ter o darshana da deidadede Krsna conhecida como Sri Vyenkateshvara ou, de forma mais simples, Balaji.Em 1974, o governo de Andhra Pradesh convidou Srila Prabhupada para visitarTirupati. Por dois dias ele ficou nas colinas Tirumala, onde o famoso temploestá situado, e ia três ou quatro vezes ao dia ver a deidade de Balaji. Aqualquer hora que fosse, os sacerdotes permitiam a Prabhupada ter um darshanaprivado por quanto tempo ele quisesse.A eficiente administração do templo impressionou Prabhupada, mas seu coraçãocontemplou um plano muito mais grandioso para dar prazer ao Senhor - distribuiramplamente Sua mensagem. Durante um conversa com o ministro das finanças dotemplo, Srila Prabhupada disse que, uma vez que o TTD, o comitê administrativodo templo Balaji, tinha a infra-estrutura básica, ele deveria agora receber aassistência dos devotos da ISKCON para que a pregação fosse feita de formamuito intensa para o benefício de todos.Para seus seguidores, Srila Prabhupada tinha mais uma mensagem: construamtemplos atrativos como o de Balaji, com excelentes acomodações para peregrinos.O ComeçoEm 1982, o TTD disponibilizou à ISKCON um grande e próspero pedaço de terra abeira das colinas Tirumala, que são a encarnação de Ananta Sesha. Em 1984,inspirados por Sua Santidade Bhaktisvarupa Damodara Svami, um discípulo deSrila Prabhupada, os devotos instalaram deidades de Sri Sri Radha-Govinda einauguraram um pequeno templo.Nenhum desenvolvimento até 1996, quando Sua Santidade Jayapataka Svami, GBC daISKCON Tirupati, reviveu o projeto. Ele indicou Revati Ramana Dasa comopresidente do templo e pediu a ele que guiasse o projeto com todo o seucoração. Revati Ramana se empenhou com seriedade, mas o progresso não viriafacilmente."Nós começamos com uma dúzia de devotos e escassos recursos", disse RevatiRamana, "mas, pela misericórdia do Senhor, nós seguimos em frente e, em 1999,nós fizemos a cerimônia de purificação do terreno para um magnífico novotemplo. Gradualmente mais devotos vieram. Com a ajuda de um grupo de dedicadosbrahmacaris, e as bênçãos dos Vaisnavas, as coisas começaram a acontecer deverdade".Construindo com Livros Para levantar fundos para o templo, Revati Ramana empregou uma estratégia aindanão testada na Índia: a venda de livros conscientes de Krsna. Tirupati épuramente um local de peregrinação, com poucos negócios ou indústrias; a maiorfonte de renda para as pessoas locais são os visitantes."Nós decidimos desenvolver um programa de venda de livros", disse RevatiRamana. "Todos os dias, cerca de cinqüenta mil pessoas visitam este local deperegrinação, pessoas não apenas da Índia, mas de todo o mundo".O TTD garantiu à ISKCON uma concessão nunca antes dada: permissão para venderos livros de Srila Prabhupada nos templos sob a jurisdição da TTD. Muitosoutros grupos religiosos tentaram antes, sem sucesso, algum espaço nos templosda TTD."Os membros da TTD gostam de nós", disse Revati Ramana, "porque nós estamospregando o mesmo imemorial sanatana-dharma que eles seguem".Todos os dias, os devotos armam seis mesas para expor os livros: duas nascolinas Tirumala, uma no templo de Govindaraja e outra no templo Padmavati(ambos em Tirupati), e duas no templo da ISKCON. Dezenas de milhares de pessoasvêem e se interagem com os devotos, e os devotos vendem milhares de livrosdiariamente. A venda de livros arrecadou certa de sessenta porcento do custo daconstrução do templo. O TemploA primeira coisa que salta aos olhos dos visitantes de Tirupati é o grandenúmero de propagandas multicoloridas em placas e outdoors que promovem asglórias do Bhagavad-gita Como Ele É e descrevem as atividades mundiais daISKCON e de Srila Prabhupada. Cerca de uma dúzia de outdoors próximos do temploexibem belas imagens de Srila Prabhupada e exaltam o presente que ele deu aomundo.Na base da torre de boas-vindas, no lado leste do templo, uma água que corre devagar lava os pés dos visitantes. Dando um passo a frente, o visitante podecontemplar o estonteante templo, com suas luzes azuis e suas cúpulas de ouro eprata. O templo é uma harmoniosa síntese da tradicional arquitetura dos templosdo sul da Índia com as modernas instalações.As cúpulas do templo exibem esculturas de Krsna, Rama, Visnu e Nrsimha. Otemplo tem uma svagata-gopuram (torre de boas-vindas, representando os pés doSenhor), uma raja-gopuram (torre real, representando o umbigo do Senhor), umavimana-gopuram (torre acima do altar, representando a cabeça do Senhor), e asquatro torres situadas nas esquinas do templo representam as quatro yugas, oueras Védicas.Degraus de mármore conduzem os visitantes às majestosas portas de entrada e auma varanda que circula o auditório. Duas escadarias nessa entrada principallevam as pessoas para o segundo andar: segundo andar este que é todo dedicado àsala do templo.A sala do templo é uma obra-prima. O teto, com cinco pinturas circulares noestilo Thanjavur é o primeiro atrativo visual. Uma pintura imitando o movimentode uma fita dourada se destaca sobre um fundo vermelho. A pintura maior aocentro é dedicada ao casal divino Sri Sri Radha-Krsna vestidos e posando noestilo do Sul da Índia e rodeados por Seus associados dançarinos. Ouro emalto-relevo decora Suas vestes.Gigantescos candelabros iluminam o centro da sala, enquanto outros menores edelicados, girando gentilmente, iluminam duas galerias do salão. Ao longodessas duas galerias também há vários pilares com seus quatro lados gravadoscom esculturas em alto-relevo. As gravuras de uma das galerias retratam asvárias encarnações do Senhor; enquanto que a outro trás Seus passatempos emvários lugares sagrados da Índia.Também ao longo das paredes são trazidas outras gigantescas esculturas gravadasem madeira trazendo novos passatempos do Senhor. Há janelas altas ricamentecoloridas com florais, juntamente com imagens de Balaji, de Sua consortePadmavati, do Senhor Jagannatha, dos Senhores Caitanya e Nityananda, bem comoSeus pés de lótus com todas as marcas auspiciosas, e os pés de lótus deRadha-Krsna. O resplandecente mármore egípcio do assoalho e as pinturasdecorativas da parede são não menos intrigantes; suas disposições combinamharmoniosamente com todas as demais obras de arte.A turnê da visão culmina na contemplação do altar de doze metros de largurailuminado como ouro, no qual preside Sri Sri Radha-Govinda, Ashta Sakhis (asoito principais gopis), o Senhor Caitanya, e Giriraja (o Senhor Krsna na formade uma rocha da Colina de Govardhana). A ausência de colunas na frente do altar(conseguida através do uso barras de ferro no formato de L escondidas naarmação do altar) permite uma visão desimpedida das deidades. Este é o primeirotemplo no Sul da Índia no qual Radha e Krsna são adorados com Suas oito gopisprincipais.O templo é projetado para conferir treino e educação espirituais. Assim, oprimeiro andar trás um teatro multimídia com auditório com assentos paratrezentas pessoas, e a varanda que o cerca trás livros para venda e tambémexemplares para leitura dos visitantes.O primeiro andar contém um hall onde podem sentar mil pessoas e também trásdioramas em suas paredes com passatempos e aforismos das escrituras. Há tambémuma casa de hóspedes de cinco andares ricamente mobiliada, salas de conferênciae um restaurantes Govinda ao lado do templo. Goloka em VaikunthaTirupati é um dos locais mais sagrados de peregrinação para os Sri Vaishnavas,aqueles que adoram Krsna em temor e reverência, o humor de Vaikuntha. Agora,construindo este templo para Radha-Krsna, as Ashta Sakhis e para o SenhorCaitanya, a ISKCON trouxe o humor de amor íntimo de Vrndavana para Tirupati.Assim, não só foi satisfeito o desejo de Srila Prabhupada, mas também foramabertas as portas de Goloka para todos os residentes de Vaikuntha.


Tradução por Bhagavan dasa (DvS)

Um Retiro Espiritual na Vila Saranagati



Artigo originalmente publicado no periódico Volta ao Supremo [Back to Godhead] Julho/Agosto - 2007


Um Retiro Espiritual na Vila Saranagati
A Spiritual Summer Retreat in Saranagati Village

Por Vishakha Devi Dasi


Cerca de quarenta e cinco anos atrás, nas águas azuis do lago do acampamento Kawakee, depois de muita prática e bater de pernas, eu coordenei meus membros, cabeça e corpo e consegui a seqüência de movimentos necessários. Finalmente eu podia nadar. Os quatro verões que passei naquele pequeno acampamento ao norte de Nova Iorque foram suficientes para que eu me apaixonasse pela natureza, por caminhadas e pela vida sem carros ou televisão. Lá eu me tornei consciente da importância da amizade e da solicitude. Aprendi a como ressuscitar alguém, a como cuidar de feridas, e a como sobreviver com o mínimo de recursos. Mas nunca me ocorreu de perguntar qual era a meta da vida ou como alcançá-la. E olhando para trás agora, eu acho que nenhum outro no acampamento Kawakee, colega ou instrutor, também se perguntou sobre isso. Para mim, essas perguntas seriam respondidas muitos anos depois – quando entrei em contato com os ensinamentos de Sua Divina Graça A. C. Bhaktivedanta Svami Prabhupada.
Srila Prabhupada explicava repetidamente que este corpo é temporário, e a alma, eterna. Na forma de vida humana, podemos, se assim desejarmos, abandonar os compromissos materiais e executarmos serviço devocional aos pés de lótus do Senhor Krsna sem desejar recompensas mundanas. Servindo ao Senhor com devoção, diz Srila Prabhupada, iremos, aos poucos, tornando-nos elegíveis a voltar ao lar, voltar ao Supremo. Ele também diz que não devemos nos tornar pais ou mães a não ser que possamos salvar nossos filhos dos repetidos nascimentos e mortes – do ciclo de transmigração da alma – ocupando-os no serviço devocional ao Senhor Supremo, Sri Krsna.
Essas instruções são claras e são confirmadas pelas escrituras. E, para nós que somos pais, a última é especialmente um grande desafio. A futilidade das atividades materiais e a necessidade de vida espiritual talvez sejam bem evidentes para nós, mas nossos filhos querem diversão e agitação – do tipo fornecida pelo acampamento Kawakee – especialmente durantes suas férias de verão.
Em uma carta para seus discípulos, Srila Prabhupada ofereceu uma solução prática para essa dificuldade: “A criança deve ser instruída de forma a se tirar vantagem de sua tendência a brincar. Ensine às crianças jogos e brincadeiras de Krsna. Elas podem ser vaqueirinhos, vacas, pavões, demônios, etc.. Se elas pensarem em Krsna enquanto brincam, como se estivessem de fato com Ele, então elas se tornaram conscientes de Krsna mui rapidamente”. Ele adicionaria mais tarde, “Deixem-nas aprenderem algo, cantarem, dançarem e comerem muita prasadam se quiserem; e não se preocupem com a natureza de brincar que elas têm. Deixem elas brincarem e correrem. Isso é natural”. Essas instruções formam a base do acampamento infantil de verão na Vila Saranagati, British Columbia, Canadá.
Livre da algazarra e tensão da vida urbana, Saranagati, a quatro horas e meia de carro de Vancouver, é uma área de 650 hectares abençoada um com lago cristalino, cujos moradores são dedicados ao princípio de vida simples e têm como meta progredir gradualmente na vida espiritual seguindo as instruções de Srila Prabhupada.
O acampamento infantil de verão, iniciado por Mataji Radha Kunda e Prabhu Kartamasa Delaney, começa suas atividades diárias com os campistas cantando japa, e em seguida fazendo um kirtana para as pequenas deidades de Krsna-Balarama do casal, ambos filhos de discípulos de Prabhupada. Apoiados nas diretrizes de Srila Prabhupada (“alguns exercícios são necessário para o bom desenvolvimento”, Prabhupada disse), eles organizam o dia das crianças com exercícios físicos e trabalhos de equipe: tudo a céu aberto. Os pequenos campistas aprendem a fazer velas, aprendem a usar arco e flecha, e ajudam uns aos outros através de um percurso com obstáculos. Eles nadam e caminham, criam dioramas com as atividades de Krsna e, para o prazer dos moradores de Saranagati, exibem um peça teatral com os passatempos do Senhor.
Em 2006, quando o trabalho de Radha e Kartamasa como professores impediu que eles continuassem na direção do acampamento, Amrta Devi tornou-se a conselheira chefe do acampamento com o apoio dos pais dos campistas e de vários moradores de Saranagati. Assim como Radha e Kartamasa, Amrta queria que as crianças se divertissem, desenvolvessem novas habilidades, e se tornassem mais conscientes de Krsna.
Sentada em uma cabana de madeira artesanal, Amrta diz, “A primeira instrução de Prahlada Maharaja para seus colegas de sala foi que, assim como os adultos, as crianças também podem executar as atividades próprias do serviço devocional. Há diversos corpos nos quais as entidades vivas podem habitar, e é muito raro conseguir um nascimento humano. Embora a forma humana seja temporária – como todos os corpos materiais – ela é significativa por permitir à entidade viva servir a Krsna com devoção. Mesmo um pequeno sincero serviço devocional pode dar à criança a mais elevada perfeição.
Amrta para um instante para ajudar um campista no seu projeto de construção com madeira.
“Nós queremos que os campistas saibam que o serviço devocional é algo natural”, ela continua. “Queremos que eles saibam que o Senhor Krsna, a Suprema Personalidade de Deus, é o amigo mais querido e o benquerente de cada um deles. Ao invés de ficarem confusas durante a infância, perdendo tempo e se envolvendo com más companhias, essas crianças estão tendo a oportunidade de servirem ao Senhor. O relacionamento dessas crianças com a Pessoa Suprema é um fato, e elas podem agir e falar de modo a dar prazer a Ele. O Senhor Krsna está além da concepção do conhecimento material, mas Ele pode ser entendido até mesmo por uma criança que O sirva com amor”.
Um dia depois do encerramento das atividades do acampamento de 2006, um dos campistas, Rasamandala, de onze anos, disse, “Eu adorei tudo aqui, do começo ao fim. Eu nem sei dizer qual foi minha atividade favorita, porque foram todas muito boas”.
Seu pai, Yoginatha Dasa, disse, “Esse acampamento é uma oportunidade para a nova geração de devotos aprenderem a se relacionarem bem, a praticar atividades devocionais, para aprenderem novas maneiras de servir a Krsna; e tudo isso enquanto se divertem. De fato, isso não se trata de um mero acampamento de verão no final das contas, mas é, na verdade, um retiro espiritual.


Tradução por Bhagavan dasa (DvS)

quinta-feira, 27 de setembro de 2007

Uma Vida de Serviço Exemplar (A Life of Ideal Service)


Uma Vida de Serviço Exemplar
A Life of Ideal Service


Por Lilavati Devi Dasi e Shachirani Devi Dasi


Servir à personalidade Bhagavata, ou o servo puro de Deus, é descrito ao longo das escrituras Védicas como sendo mais efetivo e prazeroso ao Senhor do que prestar serviço ao Senhor Supremo diretamente. O Bhagavata vem na linha de uma genuína sucessão discipular iniciada pelo Senhor, e, através da sucessão discipular, o princípio divino é transmitido ao humilde aspirante à transcendência. Sua Santidade Bhaktisvarupa Damodara Svami, também conhecido como Sripada Maharaja, prestou sincero e amoroso serviço a seu mestre espiritual, Srila Prabhupada, que pertence a linhagem espiritual da Brahma-Madhva-Gaudiya-sampradaya. Sripada Maharaja foi, assim, um exemplo ideal de bhagavata-sevarpanam – servo do Bhagavata.
Sripada Maharaja nasceu no antigo reino Vaisnava de Manipur, no nordeste da Índia, no dia nove de dezembro do ano de 1937. Era o dia sagrado conhecido como Odana-shashthi, quando novas roupas são oferecidas ao Senhor Jagannatha. Seus pais eram Sri Yogendra Singh e Srimat Kanyahanbi Devi. Sendo Vaisnavas, eles deram a seu filho o nome de Damodara, um dos santos nomes do Senhor Sri Krsna. Sri Yogendra Singh era um cantor devocional na tradição Nata Sankirtana, e por isso, desde o primeiro momento que o pequeno Damorada apareceu neste mundo, seu pai deu a seus ouvidos o deleite de canções devocionais com os nomes e passatempos do Senhor Supremo.
Quando jovem, Sripada Maharaja se deparou com muitas dificuldades. Por volta dos oito anos de idade ele perdeu seu pai, e, alguns anos depois, ele e sua irmã estavam vivendo sozinhos em grande pobreza. A vida era difícil, mas, apesar de todas as dificuldades, eles permaneceram destemidos devido a estarem refugiados na misericórdia do Senhor Sri Krsna.
Uma vez, aos dez anos, Sripada Maharaja disse a sua irmã, “Um dia teremos dinheiro, e eu lhe cobrirei de ouro”.
“Não”, ela disse, “um dia você irá se casar, cobrir sua mulher com ouro, e me esquecerá”.
A que Sripada Maharaja respondeu com firmeza, “Eu nunca vou me casar”.
Ele se manteve naishthika-brahmacari (monge celibatário) ao longo de sua vida.
Quando Sripada Maharaja completou doze anos, ele foi forçado a viver sozinho, e se mantinha plantando arroz. Assim, ele não tinha tempo para continuar seus estudos. Algum tempo depois, seu professor da escola primária percebeu seu potencial e, juntamente com um ancião da vila, providenciou a Damodara uma casa apropriada e também facilidade para seus estudos futuros.
Aos quatorze, Sripada Maharaja ficou muito doente tendo contraído tifóide. Os médicos da vila declararam com unanimidade que ele morreria em breve. Mas seu tutor orava diariamente por melhoras recitando o dashavatara-stotra, uma oração às dez encarnações do Senhor Sri Krsna. Após jejuar por quarenta dias bebendo apenas soro de leite, Sripada Maharaja se recuperou miraculosamente.
Em outro momento, Sripada Maharaja caiu de um pé de manga.
Caído e semi-inconsciente, ele ouviu seu tutor dizer, “Você não pode morrer ainda, sua missão aqui não está completa”.
Ele de repente retomou sua consciência e rapidamente se recuperou de seus machucados.
Crescendo, Sripada Maharaja era muito ávido por ouvir acerca dos passatempos do Senhor. Ele, uma vez, passou a noite toda assistindo a divina dança rasa-lila de Krsna com Suas gopis encenada de uma forma tradicional de Manipur. Ele acabou por perder sua prova final de matemática no dia seguinte. Sripada Maharaja também iria participar regularmente da adoração às deidades de Radha-Krsna, Gaura-Nitai, e Jagannatha, Baladeva e Subhadra no templo de sua vila.
Encontrando-se com Srila Prabhupada
Devido à conduta respeitosa de Sripada Maharaja ao longo de sua vida estudantil, ele desenvolveu um bom relacionamento com seus professores para toda a vida. Tendo a habilidade de se tornar um especialista em qualquer coisa que se focasse, ele ganhou bolsas que lhe permitiram continuar sua educação em Calcutá e por fim nos Estados Unidos. Na década de 60, para uma pessoa do pequeno estado de Manipur, ir para os Estados Unidos com bolsa de estudo era quase impossível. Mas, pela misericórdia do Senhor Supremo, Sripada Maharaja ganhou uma bolsa de estudos internacional do ministro da educação da Índia.
Enquanto fazia seu doutorado em Química na Universidade de Califórnia, ele conhece Srila Prabhupada. Sripada Maharaja rapidamente decide dedicar sua vida a serviço de Prabhupada e de sua missão. Sripada Maharaja recebeu iniciação espiritual de Srila Prabhupada, que lhe deu o nome espiritual de Svarupa Damodara Dasa. Mais tarde, após aceitar a iniciação de sannyasa, o prefixo Bhakti foi adicionado. Desde então ele é conhecido como Sripada Bhaktisvarupa Damodara Svami ou Sripada Maharaja.
Instruções de Prabhupada
Pelos próximos oitos anos, desde as caminhas matinais com Srila Prabhupada ao longo da praia de Venice na Califórnia dos anos 70, até a última hora em que Srila Prabhupada exibiu seus passatempos neste mundo, em Vrndavana, 1977, Srila Prabhupada daria inúmeras instruções a Sripada Maharaja de como introduzir devidamente a cultura Bhagavata no mundo dos líderes e intelectuais.
Essas instruções abrangiam os campos da ciência, filosofia, religião, cosmologia Bhagavata, evolução, arte, cultura, educação espiritual e outros. Algumas dessas conversas matinais entre Srila Prabhupada e Sripada Maharaja ao longo da praia de Venice são atualmente distribuídas e publicadas pela Bhaktivedanta Book Trust (BBT) como o livro A Vida Vem da Vida.
Em 1973, Sripada Maharaja ofereceu um pequeno livro a Srila Prabhupada no dia em que se comemorava, em Los Angeles, o dia do aparecimento de Prabhupada. Srila Prabhupada gostou tanto do livro que mandou que fosse impresso e distribuído em grande escala. O livro - The Scientific Basis of Krishna Consciousness [sem tradução para o português] – é baseado nas instruções que Sripada Maharaja recebeu de Srila Prabhupada. Prabhupada iria regularmente mostrar o livro para convidados e dizer que ele havia sido escrito por um de seus discípulos cientistas. Ele mandou a BBT imprimir mais de 100.000 cópias. Este livro ainda é muito usado para apresentar a consciência de Krsna a estudantes de faculdades e universidades ao redor do mundo. Mais de um quarto de milhão de cópias foram impressas, e ele foi traduzido para diversas línguas.
O Instituto Bhaktivedanta
Após Sripada Maharaja receber seu título de doutor em química físico-orgânica em 1974, ele foi ficar com Prabhupada em Vrndavana. Srila Prabhupada disse que queria começar um instituto para apresentar a consciência de Krsna de forma científica para os intelectuais. Ele disse querer Sripada Maharaja como o diretor do instituto. Sripada Maharaja humildemente se expressou como não sendo qualificado para a posição.
Srila Prabhupada, então, disse, “Eu lhe darei todas as instruções necessárias para dirigir o instituto. Você deve apenas segui-las”.
Mais tarde, Sripada Maharaja sugeriu o nome Instituto Bhaktivedanta, e Srila Prabhupada aceitou humildemente.
Srila Prabhupada instruiu Sripada Maharaja a como deveria ser o funcionamento e organização do instituto. Ele lhe deu instruções específicas para organizar conferências, dar palestras, escrever livros e manter-se em contato com estudantes e intelectuais.
Srila Prabhupada viu em Sripada Maharaja uma pessoa que pudesse cumprir todas essas instruções, pois ele tinha uma formação científica, uma natureza cavalheiresca, e, acima de tudo, as qualidades de um Vaisnava.
O servo pessoal de Srila Prabhupada, Srutakirti Dasa, dirigindo-se a Sripada Maharaja, disse, “Quando eu era servo pessoal de Sua Divina Graça Srila Prabhupada, parecia que você estava sempre perto dele. Ele tinha muita afeição por você... Ele dedicou tanto tempo a você porque sabia que não seria perda de tempo”.
Prabhupada disse certa vez, “Svarupa Damora é um devoto muito gentil: ele tem a qualidade de sempre fazer amigos, nunca inimigos. Ninguém é capaz de falar mal dele”.
Em 1977, Sripada Maharaja deu uma palestra sobre a base científica da consciência de Krsna em uma grande pandal (tenda) durante um programa em Bombain. Srila Prabhupada estava extremamente satisfeito com sua apresentação científica.
Honrando Sripada Maharaja, seu irmão espiritual Giriraja Svami relembrou a ocasião: “Embora Prabhupada estivesse um tanto quanto doente (tendo sido este seu último compromisso público), ele permaneceu no pandal se esforçando ao máximo para suportar as deficiências do corpo, pois ele estava tão satisfeito com seu serviço que ele queria ficar ali para ouvir sua apresentação... Eu nunca vou me esquecer de quão feliz ele estava. Eu poucas vezes o vi tão feliz. Ele estava realmente muito satisfeito com sua apresentação naquela noite no Cross Maidan”.
Qualquer discípulo de Srila Prabhupada que tenha presenciado ele e Sripada Maharaja juntos, afirma ter sido muito bonita a relação dos dois. Sripada Maharaja tomou as instruções de Srila Prabhupada como sua vida e alma. Cumprir tais instruções foi sua oferenda de amor, como discípulo, a seu divino mestre, Srila Prabhupada.
Entrevistas, Simpósios e Livros
Para o prazer de Srila Prabhupada, Sripada Maharaja organizou cinco grandes conferências internacionais, em Vrndavana (1977), Mumbai (1986), São Francisco (1990), Kolkata (1997) e em Roma (2004). Essas conferências expuseram líderes de comunidades científicas e espirituais à perspectiva Bhagavata. Ele organizou centenas de seminários e simpósios e encontrou e entrevistou várias personalidades laureadas Nobels, líderes políticos e grandes pensadores do mundo, como Charles Townes, William Phillips, Desmond Tutu, Papa João Paulo II, o Dalai Llam e Madre Teresa.
Em resposta a instrução de Srila Prabhupada de escrever livros, Sripada Maharaja publicou dezenas de livros sobre ciência e espiritualidade. Srila Prabhupada lhe disse, “Você é um cientista; prove cientificamente que Deus é uma pessoa”. Em 2006 ele publicou God Is a Person [sem tradução para o português], contendo seu diálogo com dois dos mais proeminentes laureados Nobels.
Como instruído por Srila Prabhupada, Sripada Maharaja também escreveu um comentário científico sobre os quatro primeiros versos do Vedanta-sutra, resumindo a obra. Ele também editou e publicou Savijnanam e Tattva-jijnasa, respectivamente o jornal e a revista do Instituto Bhaktivedanta. Hoje, principalmente devido a seus livros, Sripada Maharaja é reconhecido em grandes meios científicos e religiosos ao redor do mundo, e é considerado uma das autoridades vanguardistas no campo da ciência e espiritualidade.
Para distribuir os livros de Srila Prabhupada e do Instituto Bhaktivedanta a faculdades e universidades ao longo da Índia, Sripada Maharaja iniciou o Instituto Bhaktivedanta sobre Rodas. Atualmente, três ônibus/casas viajam ao redor da Índia para pregação fora dos limites do Instituto. Os membros da pregação itinerante organizam palestras e distribuem livros a estudantes, professores e bibliotecas, promovendo um diálogo entre ciência e espiritualidade.
No nordeste da Índia, Sripada Maharaja iniciou uma rede de escolas primárias e secundárias para promover os objetivos do Instituto Bhaktivedanta. Mais de quatro mil estudantes estão matriculados nessas escolas e recebem uma educação científica centralizada nos valores espirituais da tradição Bhagavata.
Distribuindo a Cultura Vaisnava
Ao longo de sua vida, Sripada Maharaja participou de inúmeros festivais e conferências ao redor do mundo. Nesses eventos ele introduziu os princípios espirituais da cultura Vaisnava, que ele havia recebido de Srila Prabhupada. Ele fez isso através da literatura, culinária e artes, levando o Vaisnavismo a inúmeros lugares, das escolas urbanas às mais prestigiadas universidades, de asilo de idosos ao renomado Centro Kennedy de Washington D.C., da América do Sul a Singapura, e para audiências do ensino fundamental a líderes de estado. A apresentação e distribuição do princípio espiritual da cultura Vaisnava por Sripada Maharaja para incontáveis pessoas ao redor do mundo faz dele, certamente, um embaixador da cultura Bhagavata.
Para apresentar a cultura Bhagavata de Manipur para o mundo, em 1989 Sripada Maharaja fundou a companhia de teatro Ranganiketan Manipuri Cultural Arts. Ranganiketan é a maior e mais frequentemente requisitada companhia de teatro da Índia. Como diretor da Ranganiketan, Sripada Maharaja compartilhou o belo passatempo da rasa-lila de Krsna com mais de um milhão de pessoas, com aproximadamente seiscentas apresentações por quase trezentas localizações diferentes por mais de quinze países.
Em seu trabalho para apresentar a cultura Bhagavata à sociedade dos intelectuais, Sripada Maharaja interagiu com muitos líderes espirituais das maiores religiões do mundo. Ele discutiu com eles o sublime e unificante ponto da tradição Bhagavata, o que muito deles apreciaram sinceramente.
Sripada Maharaja sentia que tais diálogos com os líderes religiosos era um poderoso recurso para a criação de um entendimento profundo dos pontos comuns entre várias religiões e sociedades. O futuro depende de que todas as religiões trabalhem juntas para formular um padrão mundial ético e moral para guiar as ações da humanidade na direção correta.
Nos últimos vinte e cinco anos, Sripada Maharaja organizou seminário e discussões inter-religiosas ao redor do mundo. Também, no começo da década de 80, em Manipur, ele conduziu anuais padayatras (caminhadas) pela paz e harmonia religiosa. Sripada Maharaja foi membro do conselho mundial da United Religions Initiative (URI), uma iniciativa espiritual internacional semelhante às Nações Unidas. A URI é a maior organização mundial dedicada a pregar a paz e o entendimento entre as religiões do mundo.
No espírito de paz e harmonia, Srila Prabhupada disse a Sripada Maharaja, recebendo-o em seus últimos dias de vida, que ele queria iniciar o Bhaktivedanta Svami Charity Trust para trazer união entre todos os Gaudiya Vaisnavas e para ajudar na preservação de antigos templos Gaudiyas e lugares sagrados. Sripada Maharaja trabalhou arduamente por este objetivo de paz e união.
Srila Prabhupada instruiu Sripada Maharaja a fazer de Manipur o estado do Vaisnavismo científico. Assim, Sripada Maharaja começou a construir a Universidade da Cultura Bhagavata em Imphal, Manipur. Brilhando no centro do complexo universitário está o extraordinário templo em forma de pedra preciosa Sri Sri Radha-Krsnacandra Manimandira. A grande inauguração do templo será em 21 de novembro de 2007. Todos estão convidados. Sripada Maharaja também inaugurou a construção de templos por toda a Índia, incluindo o Siliguri, o Tirupati, o Vijayawada e o Agartala.
Desde sua infância, Sripada Maharaja foi profundamente influenciado pela arte, música e danças devocionais de Manipur. Excelente cantor, instrumentalista e poeta, ele compôs vários poemas e canções Vaisnavas na língua Manipuri. Ele cantava divinamente, trazendo prazer transcendental para aqueles que o ouvissem.
Sripada Maharaja foi, e continua sendo, um mestre espiritual, professor e guia para milhares de pessoas. Por onde quer que ele passasse, sua amizade cativava e encantava pessoas de todas as idades, fés, e estilos de vida. Seus discípulos foram tocados por sua completa dedicação a instrução de seu mestre espiritual. Desejando perpetuar a missão de servir Srila Prabhupada, os discípulos de Sripada Maharaja estão agora tomando suas instruções com a mesma sinceridade e seriedade.
Partida Auspiciosa
Sripada Maharaja partiu deste mundo no dia sagrado conhecido como Vijaya Dashami, durante o período do dia em que o Senhor Sri Krishna chama as Gopis para sua divina rasa-lila. A partida de Sripada Maharaja aconteceu em Kolkata, o local sagrado do aparecimento de seu divino mestre Srila Prabhupada. Kolkata é também o local onde Srila Bhaktisiddhanta Sarasvati Thakur e Srila Bhaktivinoda Thakura deixaram este mundo. O purificado corpo de Sripada Maharaja foi colocado em samadhi (eterna meditação) no Radha-kunda, Vrndavana.


Tradução por Bhagavan dasa (DvS)

terça-feira, 25 de setembro de 2007

Abhyasa-yoga


Abhyasa-yoga
A Prática Aliada ao Esforço Constante e Ininterrupto
Em Consciência de Krishna


Por Bir Krishna Prabhu (DVS), Facilitador do Instituto Bhaktivedanta para Auto-Realização – IBAR. Uberaba, MG. 23/09/2007.


Na disciplina de bhakti-yoga – o cultivo da devoção ao Supremo objeto de adoração, Sri Krishna, por entre diversas práticas recomendadas ao praticante para lograr krishna-prema (amor puro a Deus), há uma ênfase especial no cantar do maha-mantra Hare Krishna, isto porque, como instrui Srila Prabhupada: “Ao cantarmos, hare krishna hare krishna, krishna krishna, hare hare, hare rama hare rama, rama rama, hare hare, reavivamos nossa memória de Krishna. Por meio desta prática de cantar e ouvir a vibração sonora dos santos nomes do Senhor Supremo, ocupamos nosso ouvido, língua e mente. Esta meditação mística é muito fácil de praticar, e também nos ajuda a alcançar o Senhor Supremo”. Esta prática de cantar (kirtanam) e ouvir (sravanam) irá proporcionar ao praticante lembrança (smaranam) e conseqüentemente possibilitar-lhe gozar de uma relação íntima e doce com Seu Senhor adorável, quanto a isso não há duvida.
abhyasa-yoga-yuktena
cetasa nanya-gamina
paramam purusam divyam
yati parthanucintayam
(Bg. 8.8).

“Aquele que meditando em Mim como a Suprema Personalidade de Deus, sempre ocupa sua mente em lembrar-se de Mim e não se desvia do caminho, ó Partha, com certeza Me alcança”. Repare querido leitor que o Senhor Krishna inicia Sua fala com as palavras abhyasa-yoga-yuktena, isto é, ocupando-se em meditação de modo constante e ininterrupto e em seguida o Senhor declara, cetasa nanya-gamina, sem que a mente e inteligência sejam desviadas. Aqui dois parâmetros fundamentais para que haja êxito na prática da yoga são enunciadas pelo Senhor Yogueshvara (Sri Krishna, o mestre de todos os sistemas de yoga) que são determinação e firmeza.

Vejamos então como isso se sucede. Por natureza a mente é instável e volúvel, superior a ela, está à inteligência que tem a capacidade de discernir, ponderar e deliberar. Isto é, uma vez que a inteligência tenha por meio do estudo e investigação chegada à conclusão última que Sri Krishna é paramam purusam (a Suprema Personalidade de Deus) e que meditando no Senhor sob este aspecto, a pessoa alcança o destino transcendental - param gati, a inteligência deve então sujeitar firmemente a mente a este propósito. A mente em nenhum momento pode ou deve suplantar a inteligência. Aliás é tarefa do yogi sempre zelar para alinhar perfeitamente seu aparato sensorial e espiritual, no sentido de fazer valer a seguinte hierarquia funcional: sentidos, mente, inteligência e ego, todos sob o perfeito controle da alma que por sua vez se submete à vontade da Superalma (Sri Krishna, como companheiro no coração de toda entidade viva).

Abhyasa, a prática aliada ao esforço constante e ininterrupto no cantar do maha-mantra Hare Krishna é imprescindível para o bom êxito do praticante da disciplina de bhakti-yoga. É claro que quando se é neófito na senda espiritual ocorre de tempo em tempo alguns desvios aqui e acolá - digo isso por experiência própria -, mas deve-se tomar cuidado para não se afastar muito do caminho sob o perigo de se perder e não mais voltar a ele. Para o devoto iniciado, Srila Prabhupada, o fundador-acharya da Sociedade Internacional da Consciência de Krishna, estabeleceu um voto de se cantar diariamente dezesseis voltas de japa (terço de cem e oito contas) do maha-mantra Hare Krishna. Mas para aquele que está se aproximando recentemente dos devotos de Krishna, simpatizando com os mesmos e sente vontade de cantar o maha-mantra Hare Krishna, ele pode eleger pessoalmente um numero de voltas segundo sua disponibilidade e capacidade, tomando o cuidado de agregar a isso abhyasa, isto é, tentar manter o número de voltas a que se propôs e aos poucos ir se aproximando do ideal de voltas de japa estabelecido por Srila Prabhupada. E claro, aliado a isso, aconselha-se ao candidato buscar sempre a associação dos devotos, e tomar se possível refúgio ou abrigo (um primeiro compromisso informal) num mestre espiritual que lhe inspire amor e confiança, isso lhe insuflara entusiasmo e vontade de seguir praticando esta meditação mântrica que é su-sukham – doce, agradável e muito fácil de praticar.

Irei concluir este artigo com uma metáfora muito instrutiva usada por Srila Prabhupada para ilustrar a vantagem de se pensar constantemente em Krishna, tirada dos maravilhosos ensinamentos que nos fornece diariamente a natureza, quem tiver olhos para ver que veja e quem tiver ouvidos para ouvir que ouça: “A lagarta enquanto no seu casulo pensa em tornar-se borboleta e desse modo no devido tempo se transforma em borboleta na mesma vida. De maneira semelhante, se sempre pensarmos em Krishna, é certo que, no fim de nossas vidas, teremos a mesma constituição corpórea de Krishna”.


HARE KRISHNA

O Mistério Madhusudana (The Madhusudana Mistery)


Originalmente publicado em Volta ao Supremo [Back to Godhead] – 2007
O Mistério Madhusudana
The Madhusudana Mistery

Por Satyaraja Dasa

Madhusudana. O nome sempre soou curioso para mim. De onde ele vem? No Bhagavad-gita, um de nossos textos mais sagrados, Krsna é tratado por Madhusudana, ou “o matador do demônio Madhu”, nada menos que cinco vezes (1.35, 2.1, 2.4, 6.33 e 8.2). E o pior é que Krsna não matou nenhum demônio chamado Madhu. Eu procurei ao longo de todo o vasto repertório de passatempos de Krsna várias e várias vezes. Nada de Madhu, pelo menos não em forma de demônio.
Muitos comentadores, incluindo Srila Prabhupada, dizem que por se referir a Krsna dessa maneira, Arjuna, o herói do Gita, está poeticamente indicando que Krsna poderia vencer as suas dúvidas assim como Ele vencera o inimigo de carne e osso no passado. Mas, mais uma vez, onde acontece tal morte? Quando Krsna mata um demônio chamado Madhu?
Minhas pesquisas me levam ao comentador Vaisnava do século décimo oitavo Baladeva Vidyabhushana. Ele escreve que o uso do nome Madhusudana no Gita implica que Krsna é capaz de matar a lamentação (shokam) de Arjuna assim como Ele matara Madhu no passado (madhusudana iti tasya shokam api madhuvan nihanishyatiti bhavah). Mas eu continuo me perguntando exatamente onde este demônio Madhu é descrito, e porque Arjuna se referiria a ele especificamente. Na época da guerra de Kuruksetra, Krsna havia matado muitos demônios, e Arjuna poderia ter se referido a qualquer um deles – “Ó matador de Putana”, “Ó conquistador de Kamsa”, e assim por diante. Então, para mim, obviamente há de haver uma razão para o uso específico do nome Madhusudana.
Com um pouquinho de trabalho, descobri que, de fato, Madhu não foi morto propriamente por Krsna, pelo menos não por Krsna em Sua forma original. Mas foi Visnu – a expansão de Krsna – quem se incumbiu do demônio Madhu-Kaitabha (história discutida em detalhes abaixo). Mais especificamente, Visnu matou Madhu em Sua forma de Hayagriva, que tem o corpo semelhante a um cavalo e é celebrado nos textos sagrados conhecidos como Puranas. Identificando Krsna como Madhusudana, o Gita está fazendo uma discreta conexão entre Krsna e Visnu, oferecendo aos leitores um vislumbre da divindade de Krsna.
Isto não significa que a divindade de Krsna está de alguma forma dependente de Sua identidade com Visnu. De fato, é exatamente o contrário, pois Krsna é a fonte de todas as formas e encarnações divinas. (Vide Srimad-Bhagavatam 1.3.28). Mas a concepção mais comum de Deus – todo poderoso e objeto de contemplação, mais grandioso e majestoso do que simples, invocando glorificação no lugar de intimidade – está mais de acordo com Visnu. Assim, mesmo nos tempos Védicos, a palavra Vaisnavismo (“adoração a Visnu”), e não Krsnaismo, era o nome preferido para sanatana-dharma, ou a eterna religião da alma. E também muitas escolas do Gita – tradicionalistas como algumas universidades ocidentais – tendem a ver o clímax do Gita como sendo a “grande revelação” no capítulo décimo primeiro, onde Krsna majestosamente exibe a Arjuna Sua todo-penetrante forma universal. A assunção deles é firmada na pura suntuosidade e opulência da revelação. Mas nossos grandes acharyas, com todo seu conhecimento, colocam mais ênfase no humilde pedido de Arjuna para Krsna mostrar novamente Sua forma mais íntima – embora superior – de dois braços. E preferem também enfatizam a instrução no fim do Gita (18.66) de abandonar todas as variedades de religiões e simplesmente se render a Deus [Krsna] com o coração repleto de amor e devoção.
Que Significado Carrega um Nome?
A denominação Madhusudana aparece pela primeira vez no capítulo primeiro, antes de Krsna revelar para Arjuna que tanto Ele quanto Seu amado devoto Arjuna haviam nascido várias vezes no passado (capítulo quatro), e antes dEle mostrar para Arjuna sua divindade de forma categórica (capítulo onze). A implicação é significativa: A ilusão de Arjuna é como uma lila, um passatempo transcendental, arranjado pelo Senhor. Em outras palavras, ele é colocado em um estado temporário de esquecimento para que Krsna pudesse falar o Gita, para instruir Arjuna e, através dele, cada um de nós. De outra forma, como Arjuna poderia saber, desde o começo, que Krsna é o mesmíssimo Visnu que nascera anteriormente para matar o demônio Madhu?
Claro que seguidores de Srila Prabhupada sempre souberam disso. Na introdução ao seu comentário ao Bhagavad-gita, Prabhupada escreve: “Sendo um companheiro do Senhor Krsna, Arjuna estava acima de toda ignorância, mas no Campo de Batalha de Kuruksetra, Arjuna foi posto em ignorância só para que perguntasse ao Senhor Krsna sobre os problemas da vida para que o Senhor pudesse explicá-los para o benefício das futuras gerações de seres humanos...”.
Também interessante ver como isso pode ser embasado no Mahabharata, escritura da qual o Gita é uma pequena seção: nos versos 3.41.1-4, Shiva dissera a Arjuna algo sobre a posição divina de Arjuna como Nara, o eterno associado de Narayana. E em 3.42.17-23, Yamaraja, o senhor da morte, disse a Arjuna: “Juntamente com Visnu, você irá aliviar o fardo da Terra”. Tudo isso é narrado principalmente no Sexto Livro, no qual o Gita aparece. Krsna também revelou Sua forma divina para os presentes na corte dos Kauravas, enquanto Ele estava em Sua missão de paz pelos Pandavas, e quando os Pandavas escolheram a Ele, ao invés de Suas forças armadas, para ficarem a seu lado na guerra de Kuruksetra. Assim, no momento que é falado o Bhagavad-gita, os principais combatentes sabiam perfeitamente acerca da posição divina de Krsna. Arjuna certamente sabia disso, e ao mesmo tempo não sabia – como mãe Yasoda, que viu todo o universo na boquinha do bebê Krsna e continuou tendo Ele como seu próprio filhinho.
O epíteto Madhusudana aparece repetidas vezes no Mahabharata antes do Gita, muitas vezes falado por Vaishampayana, o narrador. Mas Arjuna, Draupadi, e o demônio Sishupala também usam o nome. Assim, desde o começo do Mahabharata e no Gita, a identidade de Krsna como Visnu é clara.
A História de Madhu
A história do demônio Madhu é revelada no Kalika Purana, no Bhagavata Devi, e no Mahabharata. Srila Prabhupada menciona rapidamente a história em sei livro Krishna (no capítulo “Orações de Akrura”) e no Srimad-Bhagavatam (7.9.37, significado).
No começo, o mundo espiritual revelou o universo material, dentro do qual o Senhor Visnu se deitou sobre Sesha, Sua cama-serpente, e entrou em uma profunda sonolência cósmica. Enquanto o Senhor Visnu dormia, o caule de uma flor de lótus cresceu de Seu umbigo. No topo do caule havia uma flor de lótus, na qual apareceu Brahma, o primeiro ser criado. O Senhor Visnu deu-lhe a ordem de criar, e ele, então, meditou em como cumprir essa ordem dada por Deus.
É dito que quando Brahma sentou-se em profunda meditação, “cera de ouvido” (karna-shrotodbhava) escorreu do ouvido de Visnu. Dois ferozes demônios, Madhu e Kaitabha, nasceram daquela cera. Eles executaram grandes penitências por milhares de anos. Satisfeita com suas penitências, Laksmi, a consorte do Senhor, apareceu diante deles e concedeu-lhes a dádiva de que eles só morreriam quando eles assim o desejassem. Orgulhosos de seu novo recurso, os demônios se tornaram ultrajantemente arrogantes. Eles atacaram Brahma, ainda em meditação, e lhe roubaram os quatro Vedas. Embora furioso, Brahma estava indefeso na presença de adversários tão poderosos, e então correu para seu único refúgio, Visnu, pedindo por ajuda.
Visnu, todavia, estava em um sono profundo e não acordou, mesmo Brahma tentando ao máximo acordá-lO. Tendo realizado que o Senhor dormia por Sua vontade inconcebível, Brahma decidiu orar a Yoga-nidra, que não é outra senão a própria Deusa Laksmi em uma forma especial para servir ao Senhor em Seu sono yóguico. Atendendo ao senhor Brahma, Ela mostrou misericórdia para com ele e acordou o Senhor.
Brahma então contou ao Senhor Visnu sobre as nefastas atividades de Madhu e Kaitabha e implorou ao Senhor para destruí-los. O Senhor Visnu, sob a forma de Hayagriva, a bela encarnação como cavalo, lutou contra Madhu e Kaitabha e por fim recuperou as escrituras Védicas. Mas eles só poderiam morrer quando eles assim desejassem, como dizia a benção dada a eles. Então Visnu, inteligentemente, disse a eles que assim como a Deusa Laksmi havia lhes dado uma benção, eles também deveriam Lhe conceder uma. Afinal, Ele disse a eles, eles eram tão poderosos que deveriam mostrar para com Ele a mesma cortesia que Sua metade feminina, a forma personificada de Sua energia mística, havia lhes mostrado.
Devido à arrogância, eles caíram na astúcia do Senhor.
“Que favor Você quer de nós?” eles perguntaram. “Nós Lhe daremos qualquer coisa que Você queira”.
“Eu quero a morte de vocês!”, o Senhor respondeu.
E, assim, Hayagriva colocou um fim em suas atividades de uma vez por todas.
Srila Prabhupada escreve no Srimad-Bhagavatam (7.9.37, significado):
A transcendente Suprema Personalidade de Deus está sempre preparado para dar proteção a Seus devotos. Como mencionado aqui, o Senhor, em sua forma como Hayagriva, matou dois demônios chamados Madhu e Kaitabha quando eles atacaram o Senhor Brahma. Os demônios modernos pensam que não havia vida no começo da criação, mas pelo Srimad-Bhagavatam nós entendemos que a primeira criatura criada pela Suprema Personalidade de Deus foi o senhor Brahma, que é um grande conhecedor dos Vedas. Infelizmente, aqueles encarregados de distribuir conhecimento Védico, como os devotos ocupados na pregação da consciência de Krsna, podem, algumas vezes, serem atacados por demônios, mas eles devem estar certos que ataques demoníacos não podem atingi-los, pois o Senhor está sempre pronto para protegê-los.
A Doçura de Madhusudana
Há uma última, e mais esotérica, consideração em relação ao nome Madhusudana. Ele não significa apenas “Aquele que derrotou o demônio Madhu”, mas também significa “Aquele que derrota o mel [madhu] em doçura”. O Falso ego é tão doce quanto o mel e reside nos corações de todos, fazendo com que esqueçamos nossas identidades, como uma espécie de intoxicação. Assim, como Krsna destrói o falso ego com o archote do conhecimento, ele é chamado de Madhusudana. Por extensão, a palavra madhu se refere tanto a Krsna quanto a abelhas. Assim como abelhas tendem a desfrutar do mel das flores de lótus, Krsna desfruta do mel do amor de Seus devotos. Srila Rupa Gosvami, o grande santo Vaisnava do século dezesseis, usa essa dupla significância de Madhusudana no Ato Cinco de seu drama devocional Vidagdha Madhava:
Certa vez, quando Krsna e Radha estavam sentados juntos, um abelha estava incomodando Radharani por voar muito perto dEla. Krsna pediu a um amigo para espantar a abelha, e após espantar a abelha como Krsna lhe pedira, o amigo volta e diz que madhu foi embora. Como a palavra pode referir-se tanto a abelha quanto a Krsna, Radhrani “equivocadamente” tomou madhu como Krsna e começou a chorar, pensando que Krsna havia ido embora. Muito embora Ela estivesse bem ali nos braços de Krsna, Ela estava totalmente absorta em vipralambha-bhava, o humor de separação, um nível de amor divino aspirado pelos Vaisnavas avançados. Vendo as lágrimas de amor de Radharani, Krsna também começou a chorar, e Suas lágrimas se misturaram para se tornarem o lago sagrado conhecido, atualmente em Vrndavana, como Prema Sarovana.
Meus estudos do Gita, que Prabhupada se refere como um texto espiritual introdutório, inspirou minha pesquisa acerca do nome Madhusudana. Agora, para mim, esse nome conjura o aspecto mais íntimo de conhecimento divino, especialmente devido à relação extática do Senhor com Sua contraparte feminina. Definitivamente, Radha é responsável por Krsna se tornar Madhusudana, tanto por Seu êxtase de imaginar-se separada dEle, quanto por se expandir como Laksmi e Yoga-nidra, personagens principais no passatempo em que o Senhor mata o demônio Madhu.
Tradução por Bhagavan dasa (DvS)

Tradução dedicada ao irmão Madhusudana dasa que agora poderá dar uma aula de domingo só explicando seu nome! ; )

Humilde e Bem Consigo


Originalmente publicado na edição americana de Volta ao Supremo [Back toGodhead] no ano de 2007


Humilde e Bem Consigo (Humble and Feeling Good)


Por Archana Siddhi Devi Dasi


Como terapeuta de famílias, eu aconselho tanto pessoas do movimento Hare Krsnacomo pessoas de fora do movimento. Recentemente eu recebi um e-mail de umajovem devota que estava infeliz em seu casamento devido à postura abusiva queseu esposo tinha, mas estava em conflito quanto a deixá-lo."Talvez seja bom que eu me sinta mal comigo mesma", ela escreveu, "porque issome fará desenvolver humildade".Não foi a primeira vez que eu ouvi essa lógica. O Bhagavad-gita ensina quehumildade é essencial para o progresso espiritual. Algumas vezes, os devotos,infelizmente, pensam que se sentir mal é um pré-requisito para a humildade.Diversas vezes me deparo com devotos se complicando com o conceito deauto-estima. Tendo lido as orações de santos de nossa linha, eles, algumasvezes, pensam que seus sentimentos deveriam se enquadrar nas declaraçõesauto-depreciativas de tais grandes almas. Por associarem baixa auto-estima comavanço espiritual, tais devotos podem perpetuar por toda a vida o sentimento deestarem mal consigo mesmos. Eles podem acabar por atrair pessoas para suasvidas que lhes tratarão de acordo com a maneira com que eles mesmos se sentem ese percebem.A confusão começa por tentar igualar sentimentos que vêem de nosso ego puro comsentimentos que vêem de nosso ego material, ou falso. As grandes almasexpressam sentimentos que nascem do ego espiritual puro, sentimentos que nãosão contaminados pelos modos da natureza material. Quando eles se sentem, naspalavras do Senhor Caitanya, "mais baixos que a palha na rua", é uma emoçãoplena de prazer. O devoto puro vê à grandeza do Senhor, e vê a todos como maisqualificados do que ele próprio. Eles estão imbuídos de amor e apreciação portoda a criação de Krsna. Bhaktivinoda Thakura, um excelso mestre Vaisnava, escreveu belas cançõesexpressando sua atração e amor por Krsna, músicas sobre alcançar a meta docoração - amor incondicional pelo Senhor - e canções auto-depreciativas, nasquais ele lamenta sua falta de devoção. Como uma alma pura, ele expressa seuapego e amor pelo Senhor e, ao mesmo tempo, sua angústia de sentir-sedesqualificado e sem esperança de atingir tal amor. Esses são sentimentosautênticos que nascem da humildade e de apego e amor pelo Senhor. Reconhecendo Nossas FalhasNas primeiras fases de nossa jornada espiritual, talvez experimentemosrapidamente essas emoções por Krsna estar preparando a terra de nossos coraçõespara cultivar nossa devoção. Eu me lembro de uma importante experiência quetive antes de me tornar devota. Eu tinha grande dificuldade de aceitar críticase achava que minha opinião era absolutamente certa. Essa mentalidade criouinúmeros problemas, tanto na área profissional quanto pessoal. Por meses, eucontestei as recomendações de meu supervisor quanto a como fazer meu trabalhocomo diretora residente de um dormitório universitário. Minha obstinação estavafazendo o meu trabalho muito difícil, e eu estava aflita por isso. Finalmente,um dia, eu tive a poderosa realização de que eu estava errada. Não só eu estavaerrada quanto a esse problema em particular, mas em relação a várias outrascoisas.É-me impossível descrever quão libertador foi para mim aceitar minha naturezafalível. Eu não precisava mais carregar o peso de estar sempre certa em relaçãoa tudo. Eu me senti pequena, mas ao mesmo tempo muitas possibilidades seabriram para mim. Pela primeira vez na minha vida adulta eu pude ver meuautoritarismo assumir uma posição verdadeiramente submissa. Essa mudança depostura mental me preparou para tomar refúgio em meu mestre espiritual e nosdevotos. Krsna nos ajuda a ficarmos livres por um instante do falso-prestígiopara que possamos, como encorajamento, provar a doçura da humildade.Algumas vezes, todavia, quando ainda estamos contaminados pelos modos danatureza material e identificados com nosso corpo e mente materiais, sentir-seinferior a palha na rua pode nos tornar desmotivados, entediados ou deprimidos.Esses sentimentos, então, impedem nossas praticas devocionais. Nós temos quejulgar se para nossa psique específica tal psicologia é favorável a consciênciade Krsna ou se é um impedimento no momento. Paradoxalmente, muitas pessoasprecisam desenvolver um saudável ego material antes de transcendê-lo e realizarseu ego espiritual.Eu ouvi uma vez um palestrante motivacional dizer que as pessoas comauto-estima saudável pensam menos em si mesmas, e não menos de si mesmas.Quando nos sentimos bem quanto a nós mesmos, nós podemos devotar mais tempo eenergia doando-nos aos outros, ao invés de absorvermo-nos em auto-piedade. Altaauto-estima também nos dá liberdade para agirmos de acordo com nossos valores econvicções. Quando nos sentimos mal conosco mesmos, às vezes, fazemos coisaspara agradar ou apaziguar os outros. Em um esforço para satisfazer o desejo dosoutros, nós podemos acabar sendo influenciados a fazer coisas conflitantes àsnossas crenças e valores. Sentindo-se Digno e QualificadoNathaniel Branden, um famoso psicólogo, define auto-estima como "a disposiçãode sentir-se bem consigo mesmo e qualificado a lidar com os desafios básicos davida e como sendo digno de ser feliz". Como esses aspectos da auto-estima -auto-conhecimento e amor próprio - têm relação com a consciência de Krsna?Krsna quer que todas as almas aprisionadas no mundo material sejam pacíficas efelizes. A vida humana nos possibilita a oportunidade de ocuparmos nossostalentos e habilidades no serviço ao Senhor. Quando nos oferecemos a servir aoSenhor, sentimos grande alegria. Um amigo, certa vez, deu ao meu esposo umquadrinho com os dizeres: "O que você é é um presente de Deus para você, e oque você se torna é seu presente para Deus".Além de confundirem humildade com baixa alto-estima, os devotos, às vezes,correlacionam o conceito de auto-estima com orgulho e egoísmo. Mas é, de fato,o contrário. Pessoas que exibem alta auto-estima também exibem uma atitude maishumilde perante os outros. Eles são mais inclinados a admitir e corrigir erros,enquanto que pessoas com baixa auto-estima são muitas vezes defensivas e têm anecessidade de provarem que estão certas.Em uma famosa história do Mahabharata, Krsna encontrou certa vez comYudhisthira Maharaja e Duryodhana. Desejando glorificar Seu devoto Yudhisthira,Krsna pediu a ele que encontrasse uma pessoa mais baixa que ele, e pediu aopecaminoso Duryodhana para que procurasse uma pessoa mais gloriosa que ele.Yudhisthira tinha todas as boas qualidades. Ele era pacífico e auto-satisfeito.Sem dúvida ele possuía uma saudável auto-estima. Mesmo assim ele não conseguiuencontrar ninguém mais baixo que ele. Mais uma vez, aqui se tem o exemplo deuma Vaisnava avançado que porta humildade genuína.Por outro lado, o perverso Duryodhana procurou por todo o seu reino o dia todoe não conseguiu encontrar ninguém que ele considerasse superior a ele mesmo.Duryodhana estava contaminado com orgulho e vaidade. Ele invejou e ofendeugrandes almas. Ele vivia em constante ansiedade para manter sua posição, sempretentando eliminar seus competidores. Sua auto-estima dependia de fatoresexternos como posição e poder, e assim ele não conhecia tal coisa como pazinterior. Ele era atormentado por sua própria luxúria e ambição.Orgulho Versus Auto-estimaPensar em si mesmo como grandioso é orgulho, não auto-estima. Uma pessoa comalta auto-estima demonstra humildade. A perfeição da auto-estima é percebida empessoas completamente livres do falso-ego, nas quais a humildade é produto darealização espiritual.No nosso estado condicionado, nós possivelmente nos identificaríamos mais com amentalidade de Duryodhana do que com a de Yudhisthira Maharaja. Mas no nossoprogresso na jornada espiritual, nós começamos a nos ver de forma diferente.Quanto mais realizamos não sermos o executor independente, mas o instrumento,mais saudável nossa auto-estima se torna. Na vida material, os modos dabondade, paixão e ignorância nos influenciam. Esses modos se misturam ecompetem entre si para moldar nossa mente, incluindo o modo como nos sentimosem relação a nós mesmos.Pessoas no abismo do modo da ignorância se sentem felizes e bem em relação a simesmas quando seus sentidos estão satisfeitos. Pessoas imersas no modo dapaixão estão felizes e bem consigo mesmas quando outros valorizam e reconhecemsuas atividades. Nesses modos inferiores, nossa idéia de eu oscila o tempotodo.Pessoas no modo da bondade são felizes e sentem-se bem em relação a si mesmasquando agem em conhecimento, de acordo com seus códigos e valores. Elas sãomenos reativas a estímulos externos, assim, a auto-estima de tais pessoasdepende mais de sua própria vida interior. Consequentemente têm mais controlesobre como se sentem.Pessoas em bondade pura, percebem a si mesmas como instrumentos do Senhor. Elasnão se identificam mais como o agente de suas atividades. O Exemplo de PrabhupadaNosso mestre espiritual, Srila Prabhupada, demonstrou alta auto-estima. Emborade baixa estatura, ele parecia grande para nós. Ele sempre mantinha sua cabeçaalta e se movia com objetivo e confiança. Ele fala de forma direta, comconvicção e coragem. Suas ações eram intrépidas e ousadas, e mesmo assim eletinha uma atitude humilde, sabendo que seu sucesso era devido à providência doSenhor. Sua humildade é exemplificada em suas orações abordo do navio quandoele estava vindo pela primeira vez aos Estados Unidos da Índia:Ó Senhor, eu sou como uma marionete em Suas mãos. Então, se me trouxeste aquipara que eu dance, faze-me dançar, faze-me dançar, ó Senhor, faze me dançarcomo quiseres.Não tenha nenhuma devoção, tampouco conhecimento, mas tenho grande fé no santonome de Krsna. Eu fui designado como Bhaktivedanta, e agora, se assim quiseres,podes cumprir o verdadeiro propósito Bhaktivedanta.Com grande humildade, Prabhupada finaliza sua carta, assinado como "o maisdesafortunado e insignificante mendigo, A. C. Bhaktivedanta Swami".De um lado, essas preces demonstram que Prabhupada se sentia muito baixo, masde outro lado ele confiava poder fazer qualquer coisa com a misericórdia doSenhor. A oração também nos dá a chave para desenvolvermos puras qualidadesdevocionais: fé no Santo Nome. Quanto mais forte a nossa fé na capacidade depurificação dos Santos Nomes, maior será nossa dedicação ao processo de cantar.Nós cantaremos com tanto foco e atenção quanto pudermos e evitaremos com muitocuidado as ofensas que retardam nosso progresso espiritual.Nós ficamos menos propenso a explorar os outros quando vemos a nós mesmo comoservos, realizando a nossa - dos outros - natureza espiritual como servos deDeus. Nós somos gloriosas centelhas da energia espiritual, com todas as boasqualidades, embora sintamo-nos pequenos na presença do mais glorioso, nossoSenhor. Com esse verdadeiro conhecimento, a alma pura pode ter alta auto-estimae humildade simultaneamente.Quando eu compartilhei alguns desses pontos com a jovem que havia me enviadosua pergunta por e-mail, ela me escreveu de volta: "É-me um grande alívioentender esses pontos dessa perspectiva. Agora eu entendo que não tenho quecontinuar convivendo desonrosamente com todo o tipo de abusos para serespiritual".Ele me sugeriu a escrever um artigo sobre o tema para a revista Volta aoSupremo. Eu aderi de todo o coração sua sugestão, uma vez que outros devotoshaviam feito perguntas similares ao longo dos anos. Espero que o artigo sejaútil para todos.


Tradução por Bhagavan dasa (DvS)