Dedicado a Sua Divina Graça A.C. Bhaktivedenta Swami Prabhupada e Gurudeva Srila Dhanvantari Swami

Dedicado a Sua Divina Graça A.C. Bhaktivedenta Swami Prabhupada e Gurudeva Srila Dhanvantari Swami
Jagad Guru Srila Prabhupada

sexta-feira, 12 de outubro de 2007

O Dever do Governo: Ensinar a Consciência de Krsna - The Government’s Duty: To Teach Krsna Consciousness




O Dever do Governo: Ensinar a Consciência de Krsna
The Government’s Duty: To Teach Krsna Consciousness

Por Chandrashekhara Acharya Dasa

Em setembro de 2005, a revista diplomata francesa Label France publicou um artigo intitulado, “Cem Anos de Secularismo, A la Française”. O título se refere à celebração do centenário da lei de 1905 que oficialmente separa a Igreja do Estado. O autor do artigo escreve, “O Secularismo facilitou a co-existência pacífica de todas as convicções espirituais”. Mas em seguida, de forma suficientemente irônica, ele menciona a lei de março de 2004 que determina que “em escolas do ensino primário, escolas de ensino médio e em faculdades, o uso de símbolos ou roupas por parte dos estudantes que expressem qualquer relação deles com suas respectivas religiões é estritamente proibido”.

Pela onda de manifestos violentos que afetou e embaraçou a França em Novembro de 2004, talvez se possa questionar a eficiência da educação secular. Não seria o principal dever do governo incentivar o cumprimento de princípios religiosos e guiar seus cidadãos em direção à auto-realização? A não ser que o governo implemente a educação consciente de Krsna, a sociedade nunca será pacífica.

Como Gaudiya Vaisnavas, nós aceitamos a premissa ontológica de que não somos nossos corpos. Aceitamos a idéia de que somos almas espirituais eternas que têm apenas uma função, sendo esta prestar eterno serviço ao Senhor Supremo Sri Krsna. A meta da vida humana é se desgarrar da ilusão e redespertar seu original amor por Krsna, para que, assim, como almas espirituais, possamos retornar ao Seu reino após a morte. Essa meta de redespertarmos nossa consciência de Krsna é árdua porque cultivamos profunda ignorância por vidas e vidas, desde tempos imemoriais.

É, então, compreensível que não consigamos nos tornar conscientes de Krsna unicamente por nosso esforço isolado. Senão que precisamos de incentivo e instrução, tanto individual quanto coletivamente.

Assim, portanto, o dever primeiro do governo é guiar seus dependentes, os cidadãos, de forma que seja redespertado o amor por Krsna que está adormecido em cada um deles. De outra forma, os cidadãos serão desviados para a gratificação sensorial e se tornarão cada vez mais emaranhados no ciclo de nascimentos e mortes.
No Srimad-Bhagavatam (4.14.18), afirma-se:
yasya rashtre pure caiva bhagavan yajna-purushahijyate svena dharmena janair varnashramanvitaih
“O rei deve ser piedoso para com aquele estado e cidade em que a população observa estritamente o sistema de oito ordens sociais de varna e ashrama, e no qual todos os cidadãos se ocupam na adoração à Suprema Personalidade de Deus em suas respectivas ocupações”.
Em março de 1976 em Mayapur, os devotos da revista Volta ao Supremo perguntaram sobre o dever do governo.
“Entender qual o desejo de Deus”, ele respondeu, “e fazer com que a sociedade trabalhe neste sentido. Assim as pessoas serão felizes”.
Durante seus ensinamentos acerca deste tema, Srila Prabhupada repete esse ponto várias vezes, insistindo que o único dever do governo e dos educadores é ensinar e guiar os cidadãos em direção à Consciência de Krsna.
Reis Conscientes de Krsna do Passado
Da história Védica, aprendemos sobre grandes reinos conscientes de Krsna, como foi o de Parikshit Maharaja. Parikshit foi um rei consciente de Krsna tão glorioso que em seu reino, Kali, a personificação do mal desta era, não pôde encontrar sequer um único pedaço de terra para existir. Isto porque, no reino de Parikishit, não havia em local alguns o consumo de carne, de drogas, jogos de azar ou sexo ilícito. Parikshit Maharaja se organizou de tal forma que, independente do status social ou nível de avanço espiritual, todos eram gradualmente encaminhados rumo à auto-realização.
De forma contrastante, o atual governo secular impele seus cidadãos a cometerem as atividades pecaminosas mais grosseiras. Desesperados, esses cidadãos às vezes protestam e fazem rebeliões. O Srimad-Bhagavatam (12.2.8) compara os líderes políticos modernos a “ditadores avarentos e sem misericórdia”. É dito que com o passar de Kali-yuga, a atual era, esses líderes políticos irão “saquear as esposas e propriedades dos homens” com tanta freqüência que eles terão de “fugir para as montanhas ou florestas”.
Secularistas talvez clamem, “Ao menos, o currículo da educação secular não favorece nenhum grupo; ele é neutro”. Uma investigação, no entendo, revelaria que a educação secular favorece, sim, um grupo em particular. Ela favorece os ateístas. O preconceito intocável – que é permitido a todos, e que está presente na fundação do secularismo – é a convicção de que o ateísmo é conhecimento e que teísmo é apenas uma crença subjetiva. Certo, virou moda agora entre as instituições seculares ensinar cursos como “Religiões do Mundo” ou “Educação Religiosa”, mas esses cursos são ensinados do ponto de vista reducionista do ateísmo. Uma outra tendência quase que absoluta das instituições acadêmicas é ensinar aos estudantes que o Big Bang e a teoria da evolução de Darvin são a única realidade. Parafraseando Srila Prabhupada, a educação moderna tem apenas um afazer em sua agenda: tornar o mundo destituído de Deus.
O artigo 1 da lei francesa de 1905 mencionada anteriormente, declara, “A República assegura liberdade de pensamento. A República assegura a prática irrestrita de todos os cultos”. Isso soa promissor, mas na prática observamos exatamente o contrário. Como se pode falar de “prática irrestrita de todos os cultos” se crianças na França não podem ir para a escola usando uma cruz de Jesus, uma estrela de Davi, um turbante sique, uma tilaka Vaisnava ou qualquer outra insígnia religiosa? Embora os secularistas iludam as massas com requintadas e sofisticas pretensas filosofias, não passam de enganadores. Mais uma vez, o Bhagavatam prediz que, em Kali-yuga, a hipocrisia é tomada por virtude e qualquer um que for bom com malabarismo verbal será considerado erudito. Assim, a afirmação do princípio da República Francesa, que supostamente garante a liberdade para praticar a religião escolhida, é apenas um blefe.
A Religião Eterna
Se os políticos de todo o mundo estivessem ensinando a consciência Krsna, guiados pelos livros de Srila Prabhupada, o teísmo prevaleceria. Mesmo assim, alguns Muçulmanos, Judeus, Budistas, Cristãos, e outros poderiam protestar sentindo-se discriminados por não serem plenos adeptos da teologia Gaudiya Vaisnava. Como devotos de Krsna, todavia, nós somos certos de que a consciência de Krsna inclui a tudo; ela não discrimina ninguém. De fato, vai além de rótulos religiosos. Ela lida diretamente com todas as almas espirituais, independente de suas designações externas. Ser um Muçulmano, Cristão, Judeu ou Hindu não tem nenhuma relevância quando se falando de sanatana-dharma. Sanatana-dharma se refere a todas as entidades vivas em todas as existências.
Por exemplo, os dois seguintes versos são do Bhagavad-gita, aparentemente um escritura Hindu. Mas se educadores ensinarem esses versos para seus estudantes, onde está a questão de parcialidade para uma religião ou outra?
“Saiba que aquilo que penetra o corpo inteiro é indestrutível. Ninguém é capaz de destruir a alma imperecível”. (2.17)
“Aquele que vê que a Superalma acompanha a alma individual em todos os corpos, e que compreende que nem a alma nem a Superalma dentro do corpo destrutível são destruídas, vê de verdade”. (13.28)
De acordo com esses dois famosos versos, cada um de nós, independente de afiliações religiosas, é um ser espiritual subordinado a Deus. Onde, então, há parcialidade? Todavia, pode ainda haver teístas que, embora aceitem esses versos, não estejam prontos para aceitarem toda a teologia Gaudiya Vaisnava. Alguns poderiam protestar: “Nós não acreditamos em reencarnação, nós não aceitamos que Deus é uma pessoa, e, portanto, não aceitamos que Krsna seja a Suprema Personalidade de Deus”.
Neste caso, líderes políticos e educadores conscientes de Krsna devem ser tolerantes e compassivos. Por exemplo, um líder consciente de Krsna deveria incentivar os Muçulmanos a serem melhores Muçulmanos e Cristãos a serem melhores Cristãos, entendendo que diferentes almas espirituais influenciadas por diferentes combinações dos modos da natureza podem levar tempos diferentes até alcançarem a plataforma do serviço devocional puro, a verdadeira religião da alma. Como explica Srila Prabhupada, nós devemos encorajar cada pessoa em sua fé particular, ajudando-o, ao menos, a seguir os princípios estabelecidos por seus respectivos profetas. Isto certamente traria uma atmosfera de paz para o mundo. Por outro lado, é-nos fácil perceber que a educação secular nos leva unicamente em direção à frustração e ao sofrimento. Os manifestos violentos em novembro de 2004 na França é um de vários casos que testemunham este fato, do qual Prabhupada estava convencido: “Hoje em dia o valor é – como eles chamam isso? – governo secular, ‘Não falemos de Deus’. Esta é a situação atual do mundo. Aulas ateístas. ‘Não falemos de Deus’. Mas eles não sabem que não fazem nenhum avanço por não falarem de Deus. A situação está se tornando cada vez pior. Mas eles não têm olhos para ver. Eles não têm olhos para ver. Essa civilização sem Deus não os fará felizes. Isso é um fato”. (Aula do Srimad-Bhagavatam 7.6.1, Hong Kong, 18 de Abril de 1972).



Tradução por Bhagavan dasa (DvS

Sankirtana! Caridade para Todos os Seres - Sankirtana! Welfare for All Being



Artigo originalmente publicado na revista Back to Godhead [Volta ao Supremo] – fundada por Srila Prabhupada no ano de 1944
Sankirtana! Caridade para Todos os Seres
Sankirtana! Welfare for All Being
Por Dayananda Dasa


Alex, meu barbeiro, trabalha no salão Pilatos no Queen, Nova Iorque, no começo do bairro hispânico. O salão tem, em sua maioria, cabeleireiros e clientes latinos, e é muito alegre e colorido, muitas vezes com salsa tocando em um som ambiente. Em uma visita recente ao salão, ao invés de salsa, estava tocando o mantra om namo bhagavate vasudevaya, que significa “reverências ao Supremo Senhor Krsna”. Comentei com Alex que este era uma das canções dos Hare Krsnas. Ele e eu conversamos algumas vezes sobre a consciência de Krsna, e ele ficou um pouco interessado. Parece que o CD era uma compilação européia de várias canções e orações exóticas de todo o mundo, e fora Alex quem o trouxera para o salão.
Ele me perguntou sobre o cantar. Eu lhe expliquei que a base da religião Hare Krsna é o sankirtana, ou a glorificação do Senhor em tudo o que se faz. Uma forma de sankirtana é o cantar dos Santos Nomes do Senhor.
Alex havia visto uma vez um grupo cantando nas ruas, e perguntou “Cantar é tudo o que sua religião faz? Vocês não fazem caridades ou trabalhos voluntários?”.
“Nós fazemos esse tipo de trabalho”, eu respondi, “mas nossa caridade é para a alma”.
Caridade para a Alma
Em uma conversa anterior, eu havia explicado para o Alex que não somos esses corpos; que somos almas. A alma é o veículo da alma. Ainda assim a idéia de caridade ou compaixão pela alma o deixou confuso, então lhe expliquei que meu guru, Prabhupada, compara a caridade motivada por compaixão ao corpo a salvar o casaco de uma pessoa que está se afogando e deixá-la se afogar, enquanto que a caridade motivada por compaixão pela alma seria salvar a pessoa que se afoga. Contudo, Alex, visivelmente, não podia imaginar como algo poderia ser feito para o benefício da alma.
Eu lhe expliquei que o próprio cantar é a maior atividade beneficente, porque ele invoca a presença do Senhor na forma de Seu nome. Quando cantamos em público, todos aqueles que escutam são beneficiados com a associação do Senhor. Assim, lembre-se: sankirtana é caridade. Alex, que é Católico e de Costa Rica, disse que algumas das freiras que ele conheceu em sua escola costumavam cantar o rosário quase que o dia inteiro. Ele estava imaginando se isso era algo parecido com o nosso sankirtana.
“Sim”, eu respondi, “é similar ao sankirtana. Prabhupada certa vez disse que o cantar do nome de Allah feito pelos muçulmanos também é como sankirtana”.
Alex disse que não queria me ofender, mas ele disse ter notado que muitas pessoas que vêm os Hare Krsna cantando não entendem o que eles estão fazendo.
Ele perguntou, “como isso pode ser benéfico se as pessoas não entendem?”.
Expliquei, então, que o efeito do cantar não depende de nossa compreensão. Dei o exemplo de um remédio que tomamos para curar uma doença. Nós temos que tomar as pílulas, mas não temos de saber como elas funcionam. Depois de certo tempo, o remédio faz efeito e a doença some. Similarmente, o cantar cura a alma de sua doença, que é se prender em maya.
Alex se lembrou que havíamos falado sobre maya em nossa última conversa.
“Sim”, eu disse, “maya é ilusão, e ela nos mantém focados neste mundo, enevoando nossa tendência de estarmos conectados com Krsna”.
Ele gostou da minha explicação do misterioso efeito do cantar, mas ele continuou achando imprático cantar no meio de pessoas que não faziam a menor idéia de estarem sendo curadas de maya.
“De fato”, eu expliquei, “nós dizemos, sim, sobre maya e Krsna. Nosso trabalho beneficente inclui a disseminação dos ensinamentos e glórias de Krsna. E, sim, você está certo: quando as pessoas entendem Krsna, elas recebem um benefício maior de nossa caridade na forma de sankirtana”.
Eu adicionei que a distribuição de livros é nosso meio mais efetivo de informar as pessoas do significado do sankirtana.
Ele perguntou, “Vocês vendem livros no metrô, como os Cientologistas e os testemunhas de Jeová?”.
Eu expliquei que temos alguns livros:
“Um deles é chamado Gita, que contém as instruções de Krsna, e outro seria o Bhagavatam, que é uma coleção de livros contendo as glórias de Krsna. E nós os distribuímos amplamente, algumas vezes, mesmo no metrô”.
Tocado pela minha sinceridade, Alex se lamentou pelo fato de uma religião na qual todos simplesmente cantam o tempo todo não parecesse prática.
“Bom”, eu disse, “alguns de nossos santos são exemplos de pessoas que cantavam continuamente, mas Prabhupada me sugeriu não seguir este caminho. Ele me sugeriu cantar por cerca de uma hora e meia ou duas horas por dia como dever de discípulo, mas ele disse que usar as demais horas do dia para trabalhar para Krsna seria tão bom quanto cantar. Ele me preveniu dizendo que preguiça poderia fazer as pessoas cantarem para evitarem tal trabalho. Porque eu era um pai de família, Prabhupada me encorajou a ter uma profissão honesta e usar meu empenho e dinheiro para o sankirtana”.
A Fórmula da Caridade Transcendental
Alex ficou com o pé atrás quando mencionei dinheiro. Ele disse que sacerdotes católicos que ele conhece estão sempre pedindo dinheiro, e que ele não gosta muito disso. Eu expliquei que Caitanya havia prescrito um espécie de fórmula da caridade transcendental que abrangia sua questão:
“Caitanya instou todos a fazerem caridade na forma de sankirtana através de oferecer palavras, inteligência, riqueza e vida. Ele ensinou que a base para a caridade em foram de sankirtana são a oferenda de palavras, incluindo o cantar público ou a distribuição da palavra impressa. Inteligência também é usada na caridade, organizando-se festivais de mantras e estratégias para distribuição de livros. Por exemplo, todo ano aqui em Nova Iorque, nós temos uma grande procissão descendo a quinta avenida chamada Rathayatra, com grandes e coloridos carros adornados com bandeiras e dosséis. Vários Hare Krsnas dedicam sua inteligência em conseguir autorização para o festival, organizando mostruários de livros, preparando comida ou organizando a limpeza”.
Pelo espelho, eu pude ver o rosto de Alex ganhar vida. Ele parou de mexer no meu cabelo e me disse que havia acompanhado a parada do Rathayatra em Junho de 2002, alguns meses depois do ataque ao World Trade Center. Ele comentou que a devastação do ataque havia o deixado um tanto deprimido, mas ele sentiu como se o Rathayatra tivesse rejuvenescido sua alma. Ele também se lembrou de procissões Católicas em Costa Rica.
Sem perder o foco, ele perguntou, “E quanto ao dinheiro que você mencionou? Quem fica com o dinheiro?”.
Eu respondi, “O ponto importante é que a doação de dinheiro tem por base a oferenda de palavras e da inteligência, assim, nós devemos usar nossa inteligência quando doamos dinheiro, e não dependermos de outros para decidirem ou intercederem. Nosso dinheiro está nos festivais de mantras e na distribuição de livros. Nós também o usamos para manter os templos, que são centros de distribuição da máxima caridade, o sankirtana. Prabhupada ensinou que deveríamos nos certificar que nossas oferendas para o sankirtana não fossem usadas de forma inapropriada. Parte da missão da organização que ele fundou – a Sociedade Internacional para a Consciência de Krsna – é administrar devidamente o uso das contribuições. É especialmente importante oferecer dinheiro, porque Krsna ensina no Gita que tal oferenda é parte de uma yoga chamada karma-yoga”.
Quando mencionei yoga, Alex me disse que ele fazia um pouquinho de yoga em casa e que, algumas vezes, ia a aulas. Expliquei, então, que karma-yoga é diferente de exercícios de yoga.
“Karma-yoga é a oferenda de seu esforço e dinheiro para Krsna como uma forma de se conectar a Ele. Krsna ensina que usar dinheiro para o benefício próprio é a causa do condicionamento material, mas sacrificar sua riqueza para caridade liberta a pessoa de maya. Também, Krsna ensinou que karma-yoga é uma parte essencial da mais alta e poderosa yoga, bhakti yoga ou serviço devocional. Bhakti-yoga é a mais alta yoga porque redesperta o amor por Krsna”.
Meu corte de cabelo havia acabado já há alguns minutos, e Alex tinha outro cliente aguardando. Eu apenas o lembrei que tudo é baseado no cantar. Ele perguntou se eu poderia escrever as palavras da oração do CD, então escrevi om namo bhagavate vasudevaya. Em baixo da oração, eu escrevi: Hare Krsna, Hare Krsna, Krsna Krsna, Hare Hare / Hare Rama, Hare Rama, Rama Rama, Hare Hare.
Eu lhe disse que “a oração do CD tinha o poder do nome de Krsna, e que cantá-la iria lhe beneficiar muito. Além do mais, Prabhupada ensinou a seus seguidores que cantar Hare Krsna era algo especialmente recomendado para a era em que vivemos. O cantar de Hare Krsna é mesmo maravilhoso”.
Alex pediu para seu próximo cliente ir para a cadeira de lavar o cabelo, e eu fui para o caixa pagar pelo meu corte. Eu voltei-me para ele mais uma vez e disse que da próxima vez eu traria o Gita de Krsna para ele. Assim ele poderia aprender como oferecer sua inteligência e também o seu cantar. Aí ele brincou que ele estava um pouco longe da parte de oferecer dinheiro. Eu ri.
“Sem problema”, eu disse, “Krsna diz que você pode começar Lhe oferecendo até mesmo uma folha”.
Enquanto eu me preparava para ir embora, Alex me perguntou quanto de dinheiro eu dava para o sankirtana. Eu respondi que Prabhupada havia-me sugerido dar cinqüenta porcento do que eu ganhava, e era o que eu estava tentando dar. Ele ficou surpreso e disse que isso parecia ser bastante.
“Vou lhe dizer com sinceridade, Alex”, eu respondi, “eu estava profundamente grato pelo carinho e treinamento de Prabhupada, e senti que isso era o mínimo que eu podia fazer. Também, Caitanya costumava comprar a caridade do sankirtana à distribuição de uma fruta que cura da velhice e da morte. Eu sou encantado com essa analogia e eu, definitivamente, experienciei o benefício de dar tal fruta e ver os outros tirarei benefício dela”.


Tradução por Bhagavan dasa (DvS)

sábado, 6 de outubro de 2007

Humilde e Bem Consigo Mesmo - Humble and Feeling Good


Originalmente publicado na edição americana de Volta ao Supremo [Back to Godhead] no ano de 2007

Humilde e Bem Consigo Mesmo

Humble and Feeling Good



Por Archana Siddhi Devi Dasi

tradução Bhagavan Das (DVS)

Como terapeuta familiar, eu aconselho tanto pessoas do movimento Hare Krsna como pessoas de fora dele. Recentemente, recebi um e-mail de uma jovem devota que estava infeliz em seu casamento, devido à postura abusiva que seu esposo possuía, mas que estava em conflito quanto a deixá-lo.

“Talvez seja bom que eu me sinta mal comigo mesma”, ela escreveu, “porque isso me fará desenvolver humildade”.

Não foi esta a primeira vez que ouvi essa lógica. O Bhagavad-gita ensina que humildade é essencial para o progresso espiritual. Algumas vezes, os devotos, infelizmente, pensam que sentir-se mal é um pré-requisito para a humildade.

Diversas vezes me deparo com devotos se complicando com o conceito de auto-estima. Tendo lido as orações de santos de nossa linha, eles, algumas vezes, pensam que seus sentimentos deveriam se enquadrar nas declarações auto-depreciativas de tais grandes almas. Por associarem baixa auto-estima com avanço espiritual, tais devotos podem perpetuar por toda a vida o sentimento de estarem mal consigo mesmos. Eles podem acabar por atrair pessoas para suas vidas que lhes tratarão de acordo com a maneira com que eles mesmos se sentem e se percebem.

A confusão começa por tentar igualar sentimentos que vêm de nosso ego puro com sentimentos que vêm de nosso ego material, ou falso. As grandes almas expressam sentimentos que nascem do ego espiritual puro, sentimentos não contaminados pelos modos da natureza material. Quando eles se sentem, nas palavras do Senhor Caitanya, “mais baixos que a palha na rua”, é uma emoção plena de prazer. O devoto puro vê a grandeza do Senhor e enxerga a todos como mais qualificados do que ele próprio. Eles estão imbuídos de amor e apreciação por toda a criação de Krsna.

Bhaktivinoda Thakura, um excelso mestre Vaisnava, escreveu belas canções expressando sua atração e amor por Krsna, músicas sobre alcançar a meta do coração – amor incondicional pelo Senhor – e canções auto-depreciativas, nas quais ele lamenta sua falta de devoção. Como uma alma pura, ele expressa seu apego e amor pelo Senhor e, ao mesmo tempo, sua angústia de sentir-se desqualificado e sem esperança de atingir tal amor. Esses são sentimentos autênticos que nascem da humildade e de apego e amor pelo Senhor.

Reconhecendo Nossas Falhas

Nas primeiras fases de nossa jornada espiritual, talvez experimentemos rapidamente essas emoções pelo fato de Krsna estar preparando o terreno de nossos corações para cultivar nossa devoção. Eu me lembro de uma importante experiência que tive antes de me tornar devota. Eu tinha grande dificuldade de aceitar críticas e achava que minha opinião era absolutamente certa. Essa mentalidade criou-me inúmeros problemas, tanto na área profissional quanto pessoal. Por meses, eu contestei as recomendações de meu supervisor quanto a como fazer meu trabalho como diretora residente de um alojamento universitário. Minha obstinação estava tornando meu trabalho muito difícil, e eu estava aflita por isso. Finalmente, um dia, eu tive a poderosa realização de que eu estava errada. Não só estava errada quanto a esse problema em particular, mas em relação a várias outras coisas.

É-me impossível descrever o quão libertador foi para mim aceitar minha natureza falível. Eu não precisava mais carregar o peso de estar sempre certa em relação a tudo. Eu me senti pequena, mas ao mesmo tempo muitas possibilidades se abriram para mim. Pela primeira vez na minha vida adulta eu pude ver meu autoritarismo assumir uma posição verdadeiramente submissa. Essa mudança de postura mental me preparou para tomar refúgio em meu mestre espiritual e nos devotos. Krsna nos ajuda a ficarmos livres por um instante do falso-prestígio para que possamos, como encorajamento, provar a doçura da humildade.

Algumas vezes, todavia, quando ainda estamos contaminados pelos modos da natureza material e identificados com nosso corpo e mente materiais, sentir-se inferior à palha na rua pode nos tornar desmotivados, entediados ou deprimidos. Esses sentimentos, então, impedem nossas praticas devocionais. Nós temos que julgar se, para nossa psique específica, tal psicologia é de fato favorável à consciência de Krsna ou se é um impedimento naquele momento. Paradoxalmente, muitas pessoas precisam desenvolver um saudável ego material antes de transcendê-lo e realizar seu ego espiritual.

Eu ouvi uma vez um palestrante motivacional dizer que as pessoas com auto-estima saudável pensam menos em si mesmas, e não menos de si mesmas. Quando nos sentimos bem quanto a nós mesmos, podemos devotar mais tempo e energia doando-nos aos outros, ao invés de absorvermo-nos em auto-piedade. Alta auto-estima também nos dá a liberdade para agirmos de acordo com nossos valores e convicções. Quando nos sentimos mal conosco mesmos, às vezes fazemos coisas para agradar ou apaziguar aos outros. Em um esforço para satisfazer o desejo dos outros, podemos acabar sendo influenciados a fazer coisas conflitantes com as nossas crenças e valores.

Sentindo-se Digno e Qualificado

Nathaniel Branden, um famoso psicólogo, define auto-estima como “a disposição de sentir-se bem consigo mesmo, qualificado a lidar com os desafios básicos da vida e como sendo digno de ser feliz”. Como esses aspectos da auto-estima – auto-conhecimento e amor próprio – têm relação com a consciência de Krsna? Krsna quer que todas as almas aprisionadas no mundo material sejam pacíficas e felizes. A vida humana nos possibilita a oportunidade de ocuparmos nossos talentos e habilidades no serviço ao Senhor. Quando nos oferecemos a servir ao Senhor, sentimos grande alegria. Um amigo, certa vez, deu ao meu esposo um quadrinho com os dizeres: “O que você é é um presente de Deus para você, e o que você se torna é seu presente para Deus”.

Além de confundirem humildade com baixa auto-estima, os devotos às vezes correlacionam o conceito de auto-estima com orgulho e egoísmo. Mas é, de fato, o contrário. Pessoas que exibem alta auto-estima também exibem uma atitude mais humilde perante os outros. Eles são mais inclinados a admitir e corrigir erros, enquanto que pessoas com baixa auto-estima são muitas vezes defensivas e têm a necessidade de provarem que estão certas.

Em uma famosa história do Mahabharata, Krsna encontrou certa vez com Yudhisthira Maharaja e Duryodhana. Desejando glorificar Seu devoto Yudhisthira, Krsna pediu a ele que encontrasse uma pessoa inferior a ele, e pediu ao pecaminoso Duryodhana para que procurasse uma pessoa mais gloriosa do que ele. Yudhisthira tinha todas as boas qualidades. Ele era pacífico e auto-satisfeito. Sem dúvida, ele possuía uma saudável auto-estima. Mesmo assim, ele não conseguiu encontrar ninguém mais inferior a ele. Mais uma vez, aqui se tem o exemplo de uma Vaisnava avançado que possui humildade genuína.

Por outro lado, o perverso Duryodhana procurou por todo o seu reino o dia todo e não conseguiu encontrar ninguém que ele considerasse superior a si mesmo. Duryodhana estava contaminado com orgulho e vaidade. Ele invejou e ofendeu grandes almas. Ele vivia em constante ansiedade para manter sua posição, sempre tentando eliminar seus competidores. Sua auto-estima dependia de fatores externos como posição e poder, e assim ele não conhecia tal coisa como paz interior. Ele era atormentado por sua própria luxúria e ambição.

Orgulho Versus Auto-estima

Pensar em si mesmo como grandioso é orgulho, não auto-estima. Uma pessoa com alta auto-estima demonstra humildade. A perfeição da auto-estima é percebida em pessoas completamente livres do falso ego, nas quais a humildade é produto da realização espiritual.

Em nosso estado condicionado, possivelmente nos identificaríamos mais com a mentalidade de Duryodhana do que com a de Yudhisthira Maharaja. Mas com o progresso na jornada espiritual, começamos a nos ver de forma diferente. Quanto mais realizamos não sermos o executor independente, mas o instrumento, mais saudável nossa auto-estima se torna. Na vida material, os modos da bondade, paixão e ignorância nos influenciam. Esses modos se misturam e competem entre si para moldar nossa mente, incluindo o modo como nos sentimos em relação a nós mesmos.

Pessoas no abismo do modo da ignorância se sentem felizes e bem em relação a si mesmas quando seus sentidos estão satisfeitos. Pessoas imersas no modo da paixão estão felizes e bem consigo mesmas quando outros valorizam e reconhecem suas atividades. Nesses modos inferiores, nossa idéia de eu oscila o tempo todo.

Pessoas no modo da bondade são felizes e sentem-se bem em relação a si mesmas quando agem em conhecimento, de acordo com seus códigos e valores. Elas são menos reativas a estímulos externos, assim, a auto-estima de tais pessoas depende mais de sua própria vida interior. Consequentemente elas têm mais controle sobre como se sentem.

Pessoas em bondade pura, percebem a si mesmas como instrumentos do Senhor. Elas não se identificam mais como o agente de suas atividades.

O Exemplo de Prabhupada

Nosso mestre espiritual, Srila Prabhupada, demonstrou alta auto-estima. Embora de baixa estatura, ele parecia grande para nós. Ele sempre mantinha sua cabeça alta e se movia com objetivo e confiança. Ele falava de forma direta, com convicção e coragem. Suas ações eram intrépidas e ousadas e, mesmo assim, ele tinha uma atitude humilde, sabendo que seu sucesso era devido à providência do Senhor. Sua humildade é exemplificada em suas orações a bordo do navio quando ele estava vindo pela primeira vez aos Estados Unidos da Índia:

“Ó Senhor, sou como uma marionete em Suas mãos. Então, se me trouxeste aqui para que eu dance, faze-me dançar, faze-me dançar, ó Senhor, faze-me dançar como quiseres. Não tenho nenhuma devoção, nem tampouco conhecimento, mas tenho grande fé no santo nome de Krsna. Fui designado como Bhaktivedanta, e agora, se assim quiseres, podes cumprir o verdadeiro propósito Bhaktivedanta.”

Com grande humildade, Prabhupada finaliza sua carta, assinando como “o mais desafortunado e insignificante mendigo, A. C. Bhaktivedanta Swami”.

Se por um lado essas preces demonstram que Prabhupada se sentia muito baixo, por outro lado ele confiava poder fazer qualquer coisa com a misericórdia do Senhor. A oração também nos dá a chave para desenvolvermos a mais pura qualidade devocional: fé no Santo Nome. Quanto mais forte a nossa fé na capacidade de purificação dos Santos Nomes, maior será nossa dedicação ao processo de cantar. Nós cantaremos com o máximo foco e atenção e evitaremos cuidadosamente as ofensas capazes de retardar nosso progresso espiritual.

Ficamos menos propensos a explorar os outros ao vermos a nós mesmo como servos, realizando a natureza espiritual – nossa e a dos outros – como servos de Deus. Somos gloriosas centelhas de energia espiritual dotadas de todas as boas qualidades, embora sintamo-nos pequenos na presença do mais glorioso, nosso Senhor. Com esse verdadeiro conhecimento, a alma pura pode ter alta auto-estima e humildade simultaneamente.

Após ter compartilhado alguns desses pontos com a jovem que havia me enviado sua pergunta por e-mail, ela me escreveu de volta: “É um grande alívio entender estes pontos a partir dessa perspectiva. Agora compreendo que não tenho de continuar convivendo desonrosamente com todo o tipo de abusos para tornar-me espiritual”.

Ela então me sugeriu a escrever um artigo sobre o tema para a revista “Volta ao Supremo”. Eu aceitei a sugestão de todo o coração, uma vez que outros devotos já haviam feito perguntas similares ao longo dos anos. Espero que o artigo seja útil para todos.

Tradução por Bhagavan dasa (DvS)

É Hora de Dirigir-se Aquele que Sabe



É Hora de Dirigir-se Aquele que Sabe


Por Bir Krishna Prabhu (DVS), Facilitador do Instituto Bhaktivedanta para Auto-Realização – IBAR. Uberaba, MG. 30/09/2007.


A busca pela emancipação espiritual é sem duvida uma tarefa que requer maestria, perícia e acima de tudo um vasto conhecimento. Muitos enveredam por este caminho, uns tentando criar um processo pessoal de auto-realização, outros optam pela especulação filosófica, há também os que se submetem a grandes austeridades, etc. Embora todas essas pessoas sejam almas sinceras em seus esforços, elas na sua grande maioria acabam malogrados e frustradas, retornando a plataforma do gozo sensorial ou concluindo que Deus não existe, engrossando assim a legião de ateístas convictos. Na realidade a quase totalidade destas pessoas iludidas se esquecem que o caminho do dharma (dos princípios que nos restituem a nossa consciência divina) são enunciados diretamente pelo Senhor (dharmam tu saksad bhagavat-pranitam, SB 6.3.19). Uma coisa é certa, há um princípio que segue sempre valido e atual: se desejarmos ter êxito em qualquer campo da atividade humana, é preciso dirigirmo-nos a autoridade competente e obter dele o conhecimento necessário que nos capacite devidamente para seremos bem sucedidos em nossa empreitada. Às vezes, infelizmente, chegamos tardiamente a esta conclusão, quando vemos todos nossos esforços de muitos anos caírem por terra, e então somos forçados a admitir que é hora de dirigir-se aquele que sabe. No Bhagavad-gita, Arjuna se vê diante de um dilema insolúvel para suas limitadas capacidades intelectuais, e apresenta um vasto repertorio de sólidos argumentos diante do Senhor Krishna para desistir do seu dever de ter de travar uma batalha contra seus próprios entes queridos. Porém, finalmente ele percebe que a única alternativa que lhe resta é aceitar o Senhor como mestre espiritual, para que este lhe dê uma solução definitiva que alivie o seu sofrimento. E assim, Arjuna admite:

karpanya-dosapahata-svabhavah
prcchami tvam dharma-sammudha-cetah
yac chreyah syan niscitam bruhi tam me
sisyas te ham sadhi mam tvam prapanam
(Bg. 2.7).

“Agora, estou confuso e sinto meu coração afligido por sintomas de fraqueza que se apoderam de uma pessoa avarenta. Nesta condição, estou Te pedindo que me digas com certeza o que é melhor para mim. Eis que sou Teu discípulo e uma alma rendida a Ti. Por favor, instrui-me”. Me permiti neste artigo alterar a tradução original da primeira sentença deste verso para mostrar efetivamente o drama emocional vivido por Arjuna neste exato momento, pois, sabe-se que a pessoa avarenta mesmo dispondo de fartos recursos financeiros, se recusa em utilizá-los mesmo diante de uma emergência por recear desfazer-se dos seus bens. Srila Prabhupada traduz a primeira sentença de modo um pouco diferente e deixa para retomar esta linha de raciocínio que empreguei na mesma sentença em seu significado para o mesmo verso quando nos oferece uma definição do krpana, ou avaro, que consta do texto do Brhad-aranyaka Upanishad (3.8.10): “Avaro é aquele que, estando na plataforma de vida humana, não resolve os problemas da vida e então deixa este mundo com uma consciência rudimentar, sem compreender a ciência da auto-realização”. Uma pessoa com consciência rudimentar se preocupa somente com as necessidades atávicas, isto é, comer, dormir, abrigar-se, acasalar-se, defender-se e temer. Nesta visão rasteira da existência, ela nem sequer tem um vislumbre do que o propósito da vida vai além desta limitada e árdua luta pela sobrevivência.

Neste sentido, os textos védicos preconizam que uma vez que nos encontramos na plataforma de vida humana é hora de indagar acerca de Deus e para tanto devemos buscar o auxilio de um mestre espiritual que integra a corrente de sucessão discipular para alcançarmos o propósito de vida. Arjuna reconheceu sua limitação e conseqüentemente se rendeu ao Senhor Krishna de quem ouviu o Bhagavad-gita e assim superou o equivoco que o paralisava no cumprimento do seu dever como guerreiro. O que o leva a declarar: “Meu querido Krishna, ó pessoa infalível, agora minha ilusão se foi. Por Tua misericórdia, recuperei minha memória. Agora me sinto firme e não tenho dúvidas e estou preparado para agir segundo Tuas instruções”(Bg. 18.73). Semelhantemente no momento em que reconhecermos sinceramente a nossa incapacidade em superar sozinho as coercivas leis da natureza material que nos mergulham no esquecimento de nossa posição constitucional, como almas eternas e servas do Senhor Krishna, esta é a hora de nos dirigirmos aquele que sabe. Como conclui Srila Prabhupada de modo sucinto e conciso: “Ninguém deve, portanto, permanecer nas perplexidades materiais, mas a todos convém aproximar-se de um mestre espiritual”.



HARE KRISHNA

quarta-feira, 3 de outubro de 2007

Analisando a Estrutura do Bhagavad-gita


Originalmente publicada em Back to Godhead [Volta ao Supremo]
Analisando a Estrutura do Bhagavad-gita
Looking into the Structure of Bhagavad-gita

Por Ishvara Krishna Dasa

O Bhagavad-gita é sem dúvida o maior tratado espiritual e um dos maiores clássicos do mundo. Entender que um conceito hierárquico de realidade caracteriza o Gita pode-nos ajudar a ver a coerência da mensagem do Gita.
O Bhagavad-gita fala em dois níveis maiores de realidade e um terceiro intermediário. Podemos usar as palavras sânscritas dharma e moksha para tratar os dois níveis principais, e yoga para o terceiro. Dharma se refere a um conjunto de valores representados por dever, religião, moralidade, lei, ordem e justiça, que, juntos, mantêm a vida humana civilizada. Yoga se referiria ao esforço de se desapegar da vida mundana enquanto tenta se unir ao estado de liberação. Moksha se refere ao estado liberado de perfeição e existência eterna em serviço devocional ao Senhor Supremo Sri Krsna. O nível de dharma representa o homem enquanto parte deste mundo, o nível de moksha representa o real ou a condição absoluta (liberada), e o nível de yoga é o intermediário. Podemos também definir esses três níveis como o finito, o intermediário e o infinito.
Podemos ainda distinguir cada nível em termos de valores e de ser. Para dharma, a regra geral em termos de valores é prosperar. Neste nível, a pessoa desejaria prazeres do mundo e prosperidade, vendo esses como bons. Em termos de ser, a pessoa veria a entidade viva como sendo o corpo, sendo um ser humano ou alguma outra espécie.
No segundo nível (yoga), a pessoa rejeitaria prosperidade mundana, valorizando, ao contrário, desapego do mundo e indiferença tanto ao prazer quanto a aflição materiais. Neste nível, a pessoa se aproximaria de uma realidade mais elevada, a de moksha. Em yoga, a pessoa valorizaria a superioridade do ser de mente estável perante tanto felicidade quanto aflição, e buscaria se absorver no Brahman. Em termos de ser, a pessoa não perceberia mais a si e aos outros como o corpo, mas como eternas almas espirituais condicionadas às leis do samsara.
No terceiro nível (moksha), a pessoa substituiria a indiferença e desapego do segundo nível por profundo amor e apego à Pessoa Suprema. Como ser, a alma vigilante do segundo nível se tornaria agora um servo puro e amante da Pessoa Suprema.
Os três níveis representam estados mentais internos e atitudes. Assim, uma pessoa que vê o mundo do ponto de vista do nível primeiro é certa de ser um ser humano, e que sua meta é prosperidade. No segundo nível, a pessoa é certa de ser um eu espiritual condicionado e que deve ter como meta abandonar tal situação condicionada. No terceiro nível, a pessoa vê o Senhor Supremo em toda a parte e tenta amá-lO e servi-lO.
Podemos usar uma casa de três andares como metáfora. Cada andar tem ilimitados caminhos e oportunidades. Além disso, os residentes de cada andar têm sua própria língua, termos e assunções. De alguma forma, o Bhagavad-gita fala três línguas e constantemente se movimenta entre os três níveis. Uma vez que reconheçamos em qual nível está situado cada texto, aquele texto ou seção se torna inteligível e podemos ver como é conectado com o restante do tratado.
Um Exemplo de Transição Entre Níveis Metafísicos no Bhagavad-Gita
Quando Arjuna argumentou contra lutar na guerra, ele o fez no primeiro nível. Podemos analisar seus argumentos de acordo com os dois parâmetros previamente analisados: valores e ser. Quanto a valores, é facilmente perceptível que o foco do discurso de Arjuna é a aquisição de prosperidade mundana. Um de seus principais pontos é que a guerra causaria o decline do dharma e a ascensão de adharma, o que acarretaria em sofrimento para o mundo. Como ele acredita que prosperidade é bom, ele levanta oposição à guerra. Em termos de ser, Arjuna pensa em si mesmo e nos outros como sendo seres humanos.
Krsna não responde Arjuna diretamente, senão que leva a conversa para o segundo nível. Em Sua resposta, os valores que Krsna propõe são absolutamente diferentes; Krsna não aceita a idéia de que prosperidade mundana é algo positivo, mas sugere indiferença (e tolerância) em relação a felicidade e aflição materiais. Ele diz serem estes efêmeros e produzidos apenas da percepção sensorial. No campo do ser, Krsna não se refere aos soldados como sendo seres humanos, mas se refere a eles como almas espirituais. Não respondendo diretamente à pergunta de Arjuna, Krsna faz uma espécie de “revolução coperniciana”, mudando a assunção da conversa. Arjuna argumenta que matar seus parentes é ruim, claramente algo do departamento do primeiro andar que assume que as pessoas estão sujeitas à morte mas que a morte deve ser evitada tanto quanto possível pela causa da vida próspera. Krsna não responde aos argumentos de Arjuna, mas muda completamente a conversa para outro nível e fala partindo de outra priori. Basicamente, Ele fala que a morte não existe de fato (assunção do segundo andar) e, portanto, não percebe lógica nos argumentos de Arjuna. Assim, também, Krsna desafia a idéia de Arjuna de que prosperidade e felicidade mundana são boas e desejáveis. Ele propõe a idéia de que a indiferença a felicidade e aflição é algo bom e desejável. Em suma, Krsna fala pelo segundo andar da casa.
O Aspecto Reformador do Bhagavad-gita
Como uma escritura prática, o Bhagavad-gita oferece os meios para se cruzar o caminho entre o primeiro nível (dharma) e o terceiro (moksha). Mera adesão a dharma e rejeição a adharma não é suficiente para se alcançar o estágio de moksha. A pessoa precisa de outro tipo de empenho ou caminho. Este processo ou empreendimento é algumas vezes chamado de auto-realização, e envolve um caminho reformatório pelo qual a pessoa progride, passo a passo, avançando do nível inferior em direção ao nível superior. Quais meios práticos ou sistemas o Bhagavad-gita oferece?
Uma questão significativa levantada no Bhagavad-gita é se a pessoa deve escolher o caminho da ação ou o caminho contemplativo. Arjuna levanta tal pergunta duas vezes, no começo do terceiro e quinto capítulos. O Bhagavad-gita claramente recomenda o caminho da ação como meio para o executor se elevar do nível de dharma para o estado de moksha. A pessoa executa essas ações purificatórios de acordo com seu dharma e continua a trabalhar dentro de sua gama de deveres dharmicos. Assim, Krsna, por meio de seu discurso, encoraja Arjuna a seguir seu dharma e lutar. Todavia, com o progredir do diálogo, os motivos para Arjuna lutar começam a se refinar. Krsna mostra a Arjuna como ele pode lutar em um estado de consciência cada vez mais elevado. Dessa forma, embora externamente continuemos com a execução de nossos deveres prescritos, nós, internamente, por sublimação ou purificação, sofremos uma reforma em nossas motivações para agir. Assim, uma espécie de escadaria é formada, pela qual a pessoa sobe mais e mais de dharma a moksha no caminho da auto-realização.
Referências Textuais da Escada das Motivações
No estágio mais baixo, as atividades pessoais são motivadas pelo utilitarismo, ou o desejo de conseguir algo para si mesmo. Krsna, primeiramente, lança mão de um argumento utilitarista para tentar convencer Arjuna a empunhar suas armas. Krsna toma como verdade que Arjuna aspira a lucros, tais como fama e felicidade, e argumenta que se ele abandonar o campo de batalha ele perderá sua fama.
O próximo argumento de Krsna também é utilitarista, mas é, de alguma forma, superior no sentido de que aceita a autoridade das escrituras ao afirmar que os guerreiros mortos no campo de batalha alcançam os planetas celestiais. Podemos, portanto, chamar o estágio em que esse argumento é levantado de “utilitarismo religioso” ou “utilitarismo dharmico”.
Em outras palavras, Krsna aconselha Arjuna a seguir o dharma para que consiga certos fins nesta vida ou na próxima. Mas é superior seguir o dharma por si só, ou executar o dever por uma questão de dever. Esse estágio representa um modo puro de agir, livre de desejo aos frutos, e é um dos ensinamentos centrais do Bhagavad-gita. Ainda estamos no primeiro andar, todavia, uma vez que essa instrução não inclui a consciência do benefício maior, que é, de acordo com o Bhagavad-gita, a liberação do samsara. De qualquer forma, aqueles que seguem dharma por uma questão de dever, alcançam à perfeição do primeiro nível e podem continuar progredindo no nível seguinte.
O estágio seguinte rejeita o valor dos Vedas - considerando-os relacionados à prosperidade mundana - em prol de um ideal superior: alcançar o Brahman. Podemos chamar esse estágio de “ação motivada por alcançar o benefício maior (Brahman)”. Aquele que assim age está situado no segundo nível, caracterizado por vários processos de yoga. Ele talvez passe a praticar karma-yoga; desinteressado pelos frutos de suas ações, ele os oferece ao Supremo. Ele talvez passe a praticar jnana-yoga, ashtanga-yoga, ou bhakti-yoga. Todas essas práticas de yoga têm como objetivo comum fazer com que o praticante se desapegue dos apegos e existência materiais e se fixe no Supremo. Iluminação e renúncia caracterizam o estágio de yoga. Tendo atingido a perfeição desse estágio, nós, finalmente, elevamo-nos ao terceiro, o andar de moksha, e continuamos a executar nossos deveres em um humor profundo, puro e espontâneo de amor devocional por Krsna.
Sumário
Nós adicionamos alguns passos à nossa simples escada de três degraus. Agora podemos sumarizar os estágios em utilitarismo simples, utilitarismo dharmico, dever pelo próprio dever, agir objetivando o benefício maior ou o Brahman, o estágio de yoga, e o estágio de moksha ou devoção pura. Nessa escada das motivações, os motivos mais elevados de cada um para agir estão situados na estrutura metafísica do Bhagavad-gita. Nesse sentido, o Bhagavad-gita inclui todo o reino da existência enquanto encoraja a todos a ascenderem ao longo das diversas motivações, distanciando, assim, a pessoas do samsara e aproximando-a do Brahman. Seguindo essa estrutura, o estudante pode entender o Bhagavad-gita como um tratado teológico-filosófico coerente, firmemente conectado como um único e unificado texto. O Bhagavad-gita oferece o modelo de uma casa de três andares na qual o mundo inteiro pode morar*.


Tradução por Bhagavan dasa (DvS).


* O autor faz um intertexto com a obra biográfica de Prabhupada “Um Santo no Século XX”, que teria sua tradução literal como “Ele construiu uma casa na qual o mundo inteiro pode morar”.

terça-feira, 2 de outubro de 2007

ISKCON Tirupati: Trazendo Goloka até Vaikuntha


Originalmente publicado na edição de Julho/Agosto de 2007 de Volta ao Supremo[Back to Godhead]

ISKCON Tirupati: Trazendo Goloka até Vaikuntha

ISKCON Tirupati: Bringing Goloka to Vaikuntha


Por Murari Gupta Dasa


Há mais de três décadas atrás, Srila Prabhupada desejou estabelecer a adoraçãode Radha-Krsna em Tirupati, Sul da Índia. Agora, Revati Ramana Dasa, opresidente do templo da ISKCON Tirupati, e os dedicados devotos de lá,realizaram este desejo de Prabhupada da forma mais maravilhosa.Tirupati, em Adhra Pradesh, é a cidade que hospeda o templo mais rico do mundo,o qual é visitado por milhares de pessoas que desejam ter o darshana da deidadede Krsna conhecida como Sri Vyenkateshvara ou, de forma mais simples, Balaji.Em 1974, o governo de Andhra Pradesh convidou Srila Prabhupada para visitarTirupati. Por dois dias ele ficou nas colinas Tirumala, onde o famoso temploestá situado, e ia três ou quatro vezes ao dia ver a deidade de Balaji. Aqualquer hora que fosse, os sacerdotes permitiam a Prabhupada ter um darshanaprivado por quanto tempo ele quisesse.A eficiente administração do templo impressionou Prabhupada, mas seu coraçãocontemplou um plano muito mais grandioso para dar prazer ao Senhor - distribuiramplamente Sua mensagem. Durante um conversa com o ministro das finanças dotemplo, Srila Prabhupada disse que, uma vez que o TTD, o comitê administrativodo templo Balaji, tinha a infra-estrutura básica, ele deveria agora receber aassistência dos devotos da ISKCON para que a pregação fosse feita de formamuito intensa para o benefício de todos.Para seus seguidores, Srila Prabhupada tinha mais uma mensagem: construamtemplos atrativos como o de Balaji, com excelentes acomodações para peregrinos.O ComeçoEm 1982, o TTD disponibilizou à ISKCON um grande e próspero pedaço de terra abeira das colinas Tirumala, que são a encarnação de Ananta Sesha. Em 1984,inspirados por Sua Santidade Bhaktisvarupa Damodara Svami, um discípulo deSrila Prabhupada, os devotos instalaram deidades de Sri Sri Radha-Govinda einauguraram um pequeno templo.Nenhum desenvolvimento até 1996, quando Sua Santidade Jayapataka Svami, GBC daISKCON Tirupati, reviveu o projeto. Ele indicou Revati Ramana Dasa comopresidente do templo e pediu a ele que guiasse o projeto com todo o seucoração. Revati Ramana se empenhou com seriedade, mas o progresso não viriafacilmente."Nós começamos com uma dúzia de devotos e escassos recursos", disse RevatiRamana, "mas, pela misericórdia do Senhor, nós seguimos em frente e, em 1999,nós fizemos a cerimônia de purificação do terreno para um magnífico novotemplo. Gradualmente mais devotos vieram. Com a ajuda de um grupo de dedicadosbrahmacaris, e as bênçãos dos Vaisnavas, as coisas começaram a acontecer deverdade".Construindo com Livros Para levantar fundos para o templo, Revati Ramana empregou uma estratégia aindanão testada na Índia: a venda de livros conscientes de Krsna. Tirupati épuramente um local de peregrinação, com poucos negócios ou indústrias; a maiorfonte de renda para as pessoas locais são os visitantes."Nós decidimos desenvolver um programa de venda de livros", disse RevatiRamana. "Todos os dias, cerca de cinqüenta mil pessoas visitam este local deperegrinação, pessoas não apenas da Índia, mas de todo o mundo".O TTD garantiu à ISKCON uma concessão nunca antes dada: permissão para venderos livros de Srila Prabhupada nos templos sob a jurisdição da TTD. Muitosoutros grupos religiosos tentaram antes, sem sucesso, algum espaço nos templosda TTD."Os membros da TTD gostam de nós", disse Revati Ramana, "porque nós estamospregando o mesmo imemorial sanatana-dharma que eles seguem".Todos os dias, os devotos armam seis mesas para expor os livros: duas nascolinas Tirumala, uma no templo de Govindaraja e outra no templo Padmavati(ambos em Tirupati), e duas no templo da ISKCON. Dezenas de milhares de pessoasvêem e se interagem com os devotos, e os devotos vendem milhares de livrosdiariamente. A venda de livros arrecadou certa de sessenta porcento do custo daconstrução do templo. O TemploA primeira coisa que salta aos olhos dos visitantes de Tirupati é o grandenúmero de propagandas multicoloridas em placas e outdoors que promovem asglórias do Bhagavad-gita Como Ele É e descrevem as atividades mundiais daISKCON e de Srila Prabhupada. Cerca de uma dúzia de outdoors próximos do temploexibem belas imagens de Srila Prabhupada e exaltam o presente que ele deu aomundo.Na base da torre de boas-vindas, no lado leste do templo, uma água que corre devagar lava os pés dos visitantes. Dando um passo a frente, o visitante podecontemplar o estonteante templo, com suas luzes azuis e suas cúpulas de ouro eprata. O templo é uma harmoniosa síntese da tradicional arquitetura dos templosdo sul da Índia com as modernas instalações.As cúpulas do templo exibem esculturas de Krsna, Rama, Visnu e Nrsimha. Otemplo tem uma svagata-gopuram (torre de boas-vindas, representando os pés doSenhor), uma raja-gopuram (torre real, representando o umbigo do Senhor), umavimana-gopuram (torre acima do altar, representando a cabeça do Senhor), e asquatro torres situadas nas esquinas do templo representam as quatro yugas, oueras Védicas.Degraus de mármore conduzem os visitantes às majestosas portas de entrada e auma varanda que circula o auditório. Duas escadarias nessa entrada principallevam as pessoas para o segundo andar: segundo andar este que é todo dedicado àsala do templo.A sala do templo é uma obra-prima. O teto, com cinco pinturas circulares noestilo Thanjavur é o primeiro atrativo visual. Uma pintura imitando o movimentode uma fita dourada se destaca sobre um fundo vermelho. A pintura maior aocentro é dedicada ao casal divino Sri Sri Radha-Krsna vestidos e posando noestilo do Sul da Índia e rodeados por Seus associados dançarinos. Ouro emalto-relevo decora Suas vestes.Gigantescos candelabros iluminam o centro da sala, enquanto outros menores edelicados, girando gentilmente, iluminam duas galerias do salão. Ao longodessas duas galerias também há vários pilares com seus quatro lados gravadoscom esculturas em alto-relevo. As gravuras de uma das galerias retratam asvárias encarnações do Senhor; enquanto que a outro trás Seus passatempos emvários lugares sagrados da Índia.Também ao longo das paredes são trazidas outras gigantescas esculturas gravadasem madeira trazendo novos passatempos do Senhor. Há janelas altas ricamentecoloridas com florais, juntamente com imagens de Balaji, de Sua consortePadmavati, do Senhor Jagannatha, dos Senhores Caitanya e Nityananda, bem comoSeus pés de lótus com todas as marcas auspiciosas, e os pés de lótus deRadha-Krsna. O resplandecente mármore egípcio do assoalho e as pinturasdecorativas da parede são não menos intrigantes; suas disposições combinamharmoniosamente com todas as demais obras de arte.A turnê da visão culmina na contemplação do altar de doze metros de largurailuminado como ouro, no qual preside Sri Sri Radha-Govinda, Ashta Sakhis (asoito principais gopis), o Senhor Caitanya, e Giriraja (o Senhor Krsna na formade uma rocha da Colina de Govardhana). A ausência de colunas na frente do altar(conseguida através do uso barras de ferro no formato de L escondidas naarmação do altar) permite uma visão desimpedida das deidades. Este é o primeirotemplo no Sul da Índia no qual Radha e Krsna são adorados com Suas oito gopisprincipais.O templo é projetado para conferir treino e educação espirituais. Assim, oprimeiro andar trás um teatro multimídia com auditório com assentos paratrezentas pessoas, e a varanda que o cerca trás livros para venda e tambémexemplares para leitura dos visitantes.O primeiro andar contém um hall onde podem sentar mil pessoas e também trásdioramas em suas paredes com passatempos e aforismos das escrituras. Há tambémuma casa de hóspedes de cinco andares ricamente mobiliada, salas de conferênciae um restaurantes Govinda ao lado do templo. Goloka em VaikunthaTirupati é um dos locais mais sagrados de peregrinação para os Sri Vaishnavas,aqueles que adoram Krsna em temor e reverência, o humor de Vaikuntha. Agora,construindo este templo para Radha-Krsna, as Ashta Sakhis e para o SenhorCaitanya, a ISKCON trouxe o humor de amor íntimo de Vrndavana para Tirupati.Assim, não só foi satisfeito o desejo de Srila Prabhupada, mas também foramabertas as portas de Goloka para todos os residentes de Vaikuntha.


Tradução por Bhagavan dasa (DvS)

Um Retiro Espiritual na Vila Saranagati



Artigo originalmente publicado no periódico Volta ao Supremo [Back to Godhead] Julho/Agosto - 2007


Um Retiro Espiritual na Vila Saranagati
A Spiritual Summer Retreat in Saranagati Village

Por Vishakha Devi Dasi


Cerca de quarenta e cinco anos atrás, nas águas azuis do lago do acampamento Kawakee, depois de muita prática e bater de pernas, eu coordenei meus membros, cabeça e corpo e consegui a seqüência de movimentos necessários. Finalmente eu podia nadar. Os quatro verões que passei naquele pequeno acampamento ao norte de Nova Iorque foram suficientes para que eu me apaixonasse pela natureza, por caminhadas e pela vida sem carros ou televisão. Lá eu me tornei consciente da importância da amizade e da solicitude. Aprendi a como ressuscitar alguém, a como cuidar de feridas, e a como sobreviver com o mínimo de recursos. Mas nunca me ocorreu de perguntar qual era a meta da vida ou como alcançá-la. E olhando para trás agora, eu acho que nenhum outro no acampamento Kawakee, colega ou instrutor, também se perguntou sobre isso. Para mim, essas perguntas seriam respondidas muitos anos depois – quando entrei em contato com os ensinamentos de Sua Divina Graça A. C. Bhaktivedanta Svami Prabhupada.
Srila Prabhupada explicava repetidamente que este corpo é temporário, e a alma, eterna. Na forma de vida humana, podemos, se assim desejarmos, abandonar os compromissos materiais e executarmos serviço devocional aos pés de lótus do Senhor Krsna sem desejar recompensas mundanas. Servindo ao Senhor com devoção, diz Srila Prabhupada, iremos, aos poucos, tornando-nos elegíveis a voltar ao lar, voltar ao Supremo. Ele também diz que não devemos nos tornar pais ou mães a não ser que possamos salvar nossos filhos dos repetidos nascimentos e mortes – do ciclo de transmigração da alma – ocupando-os no serviço devocional ao Senhor Supremo, Sri Krsna.
Essas instruções são claras e são confirmadas pelas escrituras. E, para nós que somos pais, a última é especialmente um grande desafio. A futilidade das atividades materiais e a necessidade de vida espiritual talvez sejam bem evidentes para nós, mas nossos filhos querem diversão e agitação – do tipo fornecida pelo acampamento Kawakee – especialmente durantes suas férias de verão.
Em uma carta para seus discípulos, Srila Prabhupada ofereceu uma solução prática para essa dificuldade: “A criança deve ser instruída de forma a se tirar vantagem de sua tendência a brincar. Ensine às crianças jogos e brincadeiras de Krsna. Elas podem ser vaqueirinhos, vacas, pavões, demônios, etc.. Se elas pensarem em Krsna enquanto brincam, como se estivessem de fato com Ele, então elas se tornaram conscientes de Krsna mui rapidamente”. Ele adicionaria mais tarde, “Deixem-nas aprenderem algo, cantarem, dançarem e comerem muita prasadam se quiserem; e não se preocupem com a natureza de brincar que elas têm. Deixem elas brincarem e correrem. Isso é natural”. Essas instruções formam a base do acampamento infantil de verão na Vila Saranagati, British Columbia, Canadá.
Livre da algazarra e tensão da vida urbana, Saranagati, a quatro horas e meia de carro de Vancouver, é uma área de 650 hectares abençoada um com lago cristalino, cujos moradores são dedicados ao princípio de vida simples e têm como meta progredir gradualmente na vida espiritual seguindo as instruções de Srila Prabhupada.
O acampamento infantil de verão, iniciado por Mataji Radha Kunda e Prabhu Kartamasa Delaney, começa suas atividades diárias com os campistas cantando japa, e em seguida fazendo um kirtana para as pequenas deidades de Krsna-Balarama do casal, ambos filhos de discípulos de Prabhupada. Apoiados nas diretrizes de Srila Prabhupada (“alguns exercícios são necessário para o bom desenvolvimento”, Prabhupada disse), eles organizam o dia das crianças com exercícios físicos e trabalhos de equipe: tudo a céu aberto. Os pequenos campistas aprendem a fazer velas, aprendem a usar arco e flecha, e ajudam uns aos outros através de um percurso com obstáculos. Eles nadam e caminham, criam dioramas com as atividades de Krsna e, para o prazer dos moradores de Saranagati, exibem um peça teatral com os passatempos do Senhor.
Em 2006, quando o trabalho de Radha e Kartamasa como professores impediu que eles continuassem na direção do acampamento, Amrta Devi tornou-se a conselheira chefe do acampamento com o apoio dos pais dos campistas e de vários moradores de Saranagati. Assim como Radha e Kartamasa, Amrta queria que as crianças se divertissem, desenvolvessem novas habilidades, e se tornassem mais conscientes de Krsna.
Sentada em uma cabana de madeira artesanal, Amrta diz, “A primeira instrução de Prahlada Maharaja para seus colegas de sala foi que, assim como os adultos, as crianças também podem executar as atividades próprias do serviço devocional. Há diversos corpos nos quais as entidades vivas podem habitar, e é muito raro conseguir um nascimento humano. Embora a forma humana seja temporária – como todos os corpos materiais – ela é significativa por permitir à entidade viva servir a Krsna com devoção. Mesmo um pequeno sincero serviço devocional pode dar à criança a mais elevada perfeição.
Amrta para um instante para ajudar um campista no seu projeto de construção com madeira.
“Nós queremos que os campistas saibam que o serviço devocional é algo natural”, ela continua. “Queremos que eles saibam que o Senhor Krsna, a Suprema Personalidade de Deus, é o amigo mais querido e o benquerente de cada um deles. Ao invés de ficarem confusas durante a infância, perdendo tempo e se envolvendo com más companhias, essas crianças estão tendo a oportunidade de servirem ao Senhor. O relacionamento dessas crianças com a Pessoa Suprema é um fato, e elas podem agir e falar de modo a dar prazer a Ele. O Senhor Krsna está além da concepção do conhecimento material, mas Ele pode ser entendido até mesmo por uma criança que O sirva com amor”.
Um dia depois do encerramento das atividades do acampamento de 2006, um dos campistas, Rasamandala, de onze anos, disse, “Eu adorei tudo aqui, do começo ao fim. Eu nem sei dizer qual foi minha atividade favorita, porque foram todas muito boas”.
Seu pai, Yoginatha Dasa, disse, “Esse acampamento é uma oportunidade para a nova geração de devotos aprenderem a se relacionarem bem, a praticar atividades devocionais, para aprenderem novas maneiras de servir a Krsna; e tudo isso enquanto se divertem. De fato, isso não se trata de um mero acampamento de verão no final das contas, mas é, na verdade, um retiro espiritual.


Tradução por Bhagavan dasa (DvS)